Javier Milei no Brasil: o que a presença do presidente argentino no evento de Flávio Bolsonaro significa para a direita na América Latina
O presidente da Argentina, Javier Milei, participa neste sábado (25) em São Paulo do evento que oficializa a candidatura de Flávio Bolsonaro à Presidência do Brasil. A vinda de Milei ao país ocorre em um momento delicado para sua popularidade interna, marcada por escândalos de corrupção e dificuldades econômicas na Argentina.
A agenda de Milei em São Paulo inclui a condecoração com a Ordem do Ipiranga, concedida pelo governo de Tarcísio de Freitas, governador de São Paulo e pré-candidato à reeleição. Em seguida, o presidente argentino deve comparecer à convenção do PL que lança Flávio Bolsonaro como candidato à presidência.
A presença de Milei é vista por analistas como um reforço à identidade ideológica da campanha de Flávio Bolsonaro, fortalecendo o núcleo duro do eleitorado de direita. A visita, contudo, faz parte de uma estratégia mais ampla de Milei em se consolidar como liderança da direita na América Latina, viajando em seguida para eventos no Peru, Equador e Colômbia, conforme noticiado pela Reuters.
A estratégia de Milei na América Latina e o reforço à direita brasileira
A visita de Javier Milei ao Brasil não se limita a prestigiar a candidatura de Flávio Bolsonaro. Segundo a professora de Relações Internacionais da Unifesp, Regiane Bressan, o presidente argentino busca consolidar sua imagem como um reformador audaz e uma liderança política e intelectual da direita ocidental. Essa estratégia se alinha ao avanço da direita radical na América Latina, com vitórias recentes no Peru e Colômbia.
Para Bressan, a presença de Milei energiza e consolida a base eleitoral de direita, funcionando como um símbolo de coragem discursiva e radicalismo econômico. No entanto, ela pondera que a atração internacional de Milei pode não se traduzir diretamente em um aumento significativo de votos para Flávio Bolsonaro, mas sim em um reforço da identidade ideológica.
Essa estratégia de popularização regional de Milei ocorre em paralelo a uma queda em sua popularidade na Argentina. Pesquisas indicam alta desaprovação ao seu governo, afetado por escândalos de corrupção envolvendo figuras próximas, como o ex-chefe de Gabinete Manuel Adorni, e investigações judiciais nos EUA. Apesar disso, Milei comemora a queda da inflação e da pobreza, embora esses dados sejam questionados por institutos de pesquisa devido à queda dos salários reais.
Flávio Bolsonaro busca musculatura política com apoio internacional
Em um cenário de isolamento político e sem alianças consolidadas, a presença de Javier Milei no evento de lançamento de sua candidatura é vista como uma tentativa de Flávio Bolsonaro de agregar força à sua campanha. O senador enfrenta desafios como a dificuldade em atrair o eleitorado feminino, atritos com Michelle Bolsonaro e o escândalo do Banco Master. Partidos do Centrão declararam neutralidade, e o STF autorizou investigação sobre repasses para a cinebiografia de Jair Bolsonaro.
Apesar das crises, Flávio Bolsonaro se mantém competitivo nas pesquisas, figurando em segundo lugar atrás de Luiz Inácio Lula da Silva. A ausência de alianças, porém, sinaliza uma fragilidade política que a campanha busca mitigar com a presença de Tarcísio de Freitas e do presidente argentino.
A visita de Milei ao Brasil é a terceira desde que assumiu a presidência. Anteriormente, ele participou da Conferência de Ação Política Conservadora (CPAC) em Santa Catarina. Sua agenda em eventos conservadores internacionais, como nos Estados Unidos e na Espanha, já gerou controvérsias diplomáticas.
O xadrez político latino-americano e a influência dos EUA
A aproximação de líderes como Milei e o avanço da direita radical na América Latina têm sido associados por analistas a uma influência crescente dos Estados Unidos, com Donald Trump sendo mencionado como figura de apoio a essa corrente. Esse movimento político regional pode ter impacto nas eleições brasileiras, que já enfrentam tensões provocadas por tarifas impostas pelos EUA contra o Brasil.
A proibição de visitas político-eleitorais a Jair Bolsonaro, determinada pelo ministro Alexandre de Moraes do STF, adiciona um elemento de complexidade ao cenário. A decisão ocorreu após Flávio divulgar uma carta de apoio do pai à sua candidatura, evidenciando a delicada teia de relações e influências que moldam a política na região.
Apesar das dificuldades internas, Milei busca projetar uma imagem de reformador audaz no exterior, impulsionado por índices macroeconômicos que, segundo ele, estão melhorando. No entanto, o custo social desse ajuste econômico, com o empobrecimento da população e o fenômeno dos “trabalhadores pobres”, levanta questionamentos sobre a sustentabilidade de seu modelo.
