PF intensifica busca por bens de Daniel Vorcaro no exterior com apoio da Interpol
A Polícia Federal (PF) deu um passo significativo na investigação contra o empresário Daniel Vorcaro, acionando a Interpol para localizar bens e ativos espalhados pela América do Norte e Europa. A ação faz parte de uma nova frente da Operação Compliance Zero, que investiga um suposto esquema de corrupção, lavagem de dinheiro e outros crimes ligados ao Banco Master.
Essa medida, estudada há meses, visa rastrear propriedades, fundos de investimento, contas bancárias e outros ativos que podem pertencer a Vorcaro. A suspeita é de que parte de seu patrimônio tenha sido pulverizada em diversos países, incluindo paraísos fiscais, em uma tentativa de ocultação.
Segundo investigadores ouvidos pela BBC News Brasil em caráter reservado, a solicitação à Interpol foi feita por meio da ferramenta “Silver Notice” (Alerta Prata), um mecanismo recente voltado ao rastreamento internacional de bens ligados a crimes financeiros. A expectativa é de que o patrimônio de Vorcaro seja milionário e distribuído globalmente, como resultado de suas atividades à frente do conglomerado do Banco Master, cujo colapso deixou um rombo de R$ 52 bilhões junto ao Fundo Garantidor de Crédito (FGC). As informações coletadas podem subsidiar futuras medidas de bloqueio e confisco de bens.
O paradeiro da fortuna de Daniel Vorcaro
A busca pelo paradeiro dos bens de Daniel Vorcaro tornou-se um dos principais objetivos da PF desde a deflagração da Operação Compliance Zero em novembro de 2025. Vorcaro, conhecido por seu estilo de vida luxuoso, ostentava festas milionárias e propriedades de alto padrão. Documentos revelam gastos suntuosos, como uma festa de aniversário para a filha nas Bahamas, que custou cerca de R$ 5 milhões, e um evento na Sicília com a presença de artistas internacionais, demandando R$ 363,2 milhões.
Dados apresentados na CPMI do INSS em 2024 indicavam um patrimônio declarado de R$ 2,4 bilhões. No entanto, investigadores acreditam que o valor real seja significativamente maior. A identificação e localização desses ativos são consideradas fundamentais para a dimensão financeira do caso.
Liquidantes de empresas ligadas ao grupo de Vorcaro no exterior já indicaram a existência de propriedades de alto valor nos Estados Unidos, como uma mansão de R$ 180 milhões na Flórida. Uma tentativa de venda dessa propriedade pelo pai do banqueiro, Henrique Vorcaro, também investigado, foi identificada pelo liquidante do banco.
A negociação frustrada de delação premiada
A dificuldade em mapear completamente os ativos de Daniel Vorcaro no exterior foi um dos principais pontos que impediram o avanço de um acordo de colaboração premiada entre o empresário, a PF e a Procuradoria-Geral da República (PGR). Durante as negociações, Vorcaro teria resistido em fornecer a localização de parte de seu patrimônio, inviabilizando a colaboração.
Atualmente, Vorcaro permanece preso em Brasília. A difusão da “Silver Notice” pela Interpol representa a segunda frente de investigação sobre seu patrimônio externo, após a Justiça dos Estados Unidos ter autorizado, em abril, consultas a instituições financeiras norte-americanas em busca de ativos vinculados ao banqueiro.
Contexto da Operação Compliance Zero
O caso ganhou destaque em 18 de novembro de 2025, com a primeira prisão de Vorcaro e a subsequente liquidação do Banco Master e outras duas instituições financeiras ligadas a ele pelo Banco Central. Embora tenha sido solto no final de novembro daquele ano, foi preso novamente em março de 2026, permanecendo detido desde então.
A investigação apura crimes contra o sistema financeiro nacional, incluindo uma tentativa de venda de ativos do Master para o Banco de Brasília (BRB) por R$ 12 bilhões, que seria uma manobra para sanar dificuldades financeiras. Suspeitas de captação irregular de investimentos de Regimes Próprios de Previdência Social (RPPS) também são apuradas, com indícios de pressão política para a realização desses investimentos.
A defesa de Daniel Vorcaro tem negado as acusações. As investigações também abordaram supostas relações do banqueiro com políticos e membros do Judiciário, como os ministros Dias Toffoli e Alexandre de Moraes, além dos senadores Ciro Nogueira, Jaques Wagner e Flávio Bolsonaro, que negam irregularidades em suas defesas.
