Professor da UFF: Irã Sai Vencedor em Acordo Inicial com EUA, Freando Projeção de Israel no Oriente Médio
O recente acordo inicial de paz assinado entre Irã e Estados Unidos representa uma vitória parcial significativa para o Irã, segundo análise de Vitelio Brustolin, professor de Relações Internacionais da Universidade Federal Fluminense (UFF) e pesquisador de Harvard. Apesar das pesadas baixas sofridas durante o conflito, incluindo a morte de milhares de civis e a perda de parte de suas forças armadas, o Irã conseguiu negociar termos que fortalecem sua posição geopolítica.
Brustolin destaca que, mesmo diante das adversidades, Teerã manteve o controle sobre o estratégico Estreito de Ormuz. Essa capacidade de influenciar uma via crucial para o escoamento de petróleo e gás mundial permitiu ao Irã apresentar suas exigências nas negociações e, de quebra, **frear a crescente projeção de Israel** na região do Oriente Médio.
A guerra, conforme aponta o professor, não tinha como objetivo principal o controle do Estreito de Ormuz em si, mas sim conter o avanço do poder iraniano na região, um objetivo declarado no início do conflito. A assinatura deste “memorando de entendimento”, como é chamado oficialmente pelos EUA e Irã, sugere que o Irã conseguiu manter sua capacidade de impor sua influência militar sobre países vizinhos e aliados americanos, como Arábia Saudita, Kuwait e Bahrein, que foram alvos constantes de ataques.
O Estreito de Ormuz e o Poder de Barganha Iraniano
O Estreito de Ormuz, vital para o comércio global de energia, foi fechado pelo Irã em fevereiro como resposta direta à ofensiva militar de EUA e Israel. Essa ação elevou os preços do petróleo e do gás no mercado internacional, gerando um efeito cascata em toda a economia mundial. A manutenção do controle sobre este estreito deu ao Irã um poderoso **poder de barganha** nas negociações.
Brustolin ressalta que, além de manter o controle do Estreito de Ormuz, o Irã está negociando o fim das sanções impostas e o acesso a um fundo de US$ 300 bilhões. Isso ocorre sem a necessidade de desmantelar sua rede de influência regional, que inclui grupos como o Hezbollah no Líbano e os houthis no Iêmen, considerados terroristas por parte da comunidade internacional.
Israel e a Frustração na Contenção do Irã
Desde os ataques terroristas do Hamas em outubro de 2023, Israel tem conduzido uma ofensiva em múltiplas frentes, buscando enfraquecer seus adversários regionais. O país atacou o Hamas em Gaza, o Hezbollah no Líbano e a Síria, enfraquecendo o que se descreve como um “eixo de poder de proxies” iranianos. No entanto, o governo israelense viu-se frustrado em seu objetivo de desmantelar o programa de drones e mísseis balísticos do Irã, capazes de atingir seu território.
O Acordo Inicial: Um Cessar-Fogo com Pontas Soltas
O acordo inicial assinado nesta semana é visto por Brustolin mais como um cessar-fogo, onde as partes concordam em interromper os combates para buscar uma resolução diplomática. Muitas questões cruciais permanecem em aberto, especialmente o programa nuclear iraniano, que será discutido nos próximos 60 dias, com possibilidade de prorrogação.
O professor relembra o acordo nuclear de 2015, firmado entre o Irã e o governo de Barack Obama, que impunha restrições ao programa nuclear iraniano em troca do fim das sanções comerciais. Esse acordo foi criticado por Donald Trump e por senadores republicanos, levando Trump a se retirar unilateralmente dele durante sua presidência. O atual programa nuclear iraniano possui cerca de 11 toneladas de urânio enriquecido a um teor significativamente alto, próximo aos 60%, enquanto 90% de pureza é necessário para a fabricação de armas nucleares.
Brustolin avalia que há grandes chances de Trump conseguir um acordo similar ou até pior para os EUA do que o anterior. O acordo de Obama tinha validade de 15 anos, enquanto Trump deseja estender o prazo para 20 anos, mas o Irã propôs 10 anos. É provável que um meio-termo seja encontrado, possivelmente em 15 anos, **restaurando a validade do acordo original**.
O “memorando de entendimento” estabelece o fim imediato e permanente da guerra, o respeito mútuo à soberania e a não interferência nos assuntos internos. Os EUA suspenderão o bloqueio naval e retirarão suas forças militares da região. O Irã reabrirá o Estreito de Ormuz e garantirá passagem segura para navios comerciais. Os EUA, junto a parceiros regionais, criarão um programa de reconstrução econômica para o Irã, com financiamento mínimo de US$ 300 bilhões, e encerrarão todas as sanções, incluindo as unilaterais americanas. O Irã reafirma seu compromisso de não produzir armas nucleares, com supervisão da AIEA.
Ambas as partes concordam em manter o status quo nuclear do Irã e em não impor novas sanções ou aumentar a presença militar americana no Oriente Médio. Os EUA permitirão o comércio de petróleo e produtos petroquímicos iranianos e liberarão todos os ativos e fundos congelados. Um mecanismo de implementação será estabelecido para supervisionar o cumprimento do memorando e a adesão ao acordo final, que deverá ser ratificado pelo Conselho de Segurança da ONU em até 60 dias.
