Proibição das Apostas Online no Brasil: O Fim da Festa ou o Início de Cicatrizes Profundas para Dependentes?

BRASIL

A proibição das apostas esportivas e jogos online de quota fixa no Brasil, em vigor desde setembro, promete conter o endividamento da população, mas não elimina as cicatrizes deixadas pela dependência.

A história de Joana, que passou 41 dias internada para tratar sua dependência em apostas, é um exemplo extremo de uma realidade que afeta milhões de brasileiros. Apesar da proibição, o desejo e a dependência de apostar persistem, evidenciados pelo aumento de 5.000% nas buscas por termos como “como parar de apostar” no Google nos últimos 12 meses.

O vício em apostas online já causou um prejuízo estimado em R$ 38,8 bilhões ao Brasil, com R$ 30 bilhões relacionados à perda de qualidade de vida, depressão e tratamentos médicos, segundo um dossiê do IEPS. A medida provisória pode tirar plataformas autorizadas de circulação, mas não o desejo de apostar.

Conforme informação divulgada pelo UOL, a proibição recente das bets não esvaziou as salas de reuniões de grupos como os Jogadores Anônimos, onde pessoas compartilham suas lutas e buscam estratégias para permanecer longe do vício. A plataforma gov.br registrou mais de 1,3 milhão de pedidos de autoexclusão de CPFs em sites de apostas até agosto, demonstrando a dimensão do problema.

Quando parar não basta: a busca por ajuda profissional e em grupo

Joana, após a internação, encontrou apoio nos Jogadores Anônimos (JA), um programa de recuperação com 12 passos, similar ao Alcoólicos Anônimos. As reuniões, gratuitas e sigilosas, oferecem um espaço para compartilhar experiências e dificuldades. O UOL tem acompanhado essas reuniões em São Paulo, onde o sigilo é regra fundamental: “Quem você vê aqui, o que você ouve aqui, quando você sair daqui, deixe que fique aqui”.

Genivaldo*, de 34 anos, relata em uma dessas reuniões como percebeu que o dinheiro das apostas não era mais seu. Iniciou com R$ 10 no jogo do “Tigrinho”, mas “continuou jogando para tentar fazer mais dinheiro”, chegando a comprometer quase todo seu salário de R$ 3.000 para pagar dívidas de apostas. A lembrança mais dolorosa é ter pego dinheiro emprestado da mãe, aposentada, e não ter pago o combinado.

O impacto devastador das apostas na vida pessoal e financeira

Bruna*, 31 anos, vendedora e mãe, estima ter perdido cerca de R$ 80 mil em apostas, chegando a apostar seu salário inteiro de R$ 2.000. Ela jogava modalidades como o “jogo do ratinho” e da “caveirinha”. Além das perdas financeiras, Bruna descreve um distanciamento da realidade e de seu filho, que mora com o pai. “A tela ocupava o espaço que deveria ser preenchido pela conversa, pela atenção, pela convivência.”, relata.

O jogo, que muitas vezes começa como uma tentativa de ganhar dinheiro, pode gradualmente reorganizar a vida da pessoa ao seu redor. A acessibilidade das apostas, principalmente via smartphones, tornou-as uma “casa de apostas que cabia no bolso”, disponível a qualquer momento e lugar. Homens predominam em apostas esportivas, mas mulheres representam quase 40% dos apostadores esportivos no Brasil.

O mercado ilegal e a batalha contra a ludopatia

A proibição das bets legais levanta incertezas sobre o mercado ilegal, que, segundo estimativas do Instituto Brasileiro do Jogo Responsável, representava cerca de 40% do mercado antes da proibição. A medida provisória prevê que sites autorizados e clandestinos saiam do ar em outubro. O Ministério da Justiça e Segurança Pública tem atuado para derrubar milhares de sites e aplicativos ilegais, além de notificar plataformas de redes sociais para remoção de conteúdo publicitário.

O transtorno do jogo, reconhecido como ludopatia pela OMS, é uma condição de saúde mental. O SUS registrou mais de 10.500 atendimentos relacionados ao tema entre 2018 e 2025, com um crescimento de mais de 1.100% na procura entre 2018 e 2024. A psiquiatra Camila Espinola alerta que o vício em jogos é “a ponta do iceberg” de doenças de base que precisam ser tratadas, muitas vezes associadas a outros transtornos psiquiátricos.

A neurociência da dependência e as chances de recuperação

O neurologista Wuilker Knoner Campos explica que a dependência afeta os circuitos cerebrais de recompensa e controle de impulsos, fazendo com que o “cérebro passe a dar um valor exagerado à aposta e perde a eficiência em frear esses impulsos”. A recuperação é possível através da neuroplasticidade, que permite modificar associações entre gatilhos e comportamentos, enfraquecendo a ligação automática entre situações e a necessidade de apostar.

Dados do Ambulatório do Jogo do Hospital das Clínicas da USP indicam que 80% dos pacientes que buscam o serviço já apresentaram ideação suicida devido ao vício. Atualmente, 65% desses pacientes são motivados pela dependência em apostas online. Para quem cruzou a linha do entretenimento, a proibição pode remover as plataformas, mas não o desejo de apostar nem a dependência.

O fantasma depois da tela, as dívidas acumuladas e as consequências profundas deixadas por anos de jogo não desaparecem com o fim da conexão de internet. A batalha pela recuperação continua, dentro e fora das salas de apoio, enquanto o mundo das apostas se adapta às novas regras.

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