Testosterona e Chip da Beleza: Entenda os Riscos da Terapia Hormonal Sem Necessidade Médica

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Uso de Hormônios Sem Necessidade Médica: Um Problema Crescente de Saúde Pública

A testosterona, produzida naturalmente por homens e mulheres, desempenha funções vitais no organismo. Sua reposição hormonal é indicada apenas em casos específicos de deficiência hormonal, confirmada por exames e com sintomas compatíveis. No entanto, o hormônio tem sido banalizado como solução para emagrecer, ganhar músculos ou aumentar a disposição, configurando um problema de saúde pública, segundo o endocrinologista Pedro Andrade.

A expansão do interesse por hormônios como a testosterona se concentra em três promessas: transformar o corpo, melhorar a performance e recuperar a disposição ou a libido. Expressões como “modulação hormonal”, “terapia de otimização” e “chip da beleza” ganham espaço nesse contexto, muitas vezes mascarando os riscos envolvidos.

O uso inadequado de testosterona e outros hormônios pode levar a sérios problemas de saúde, incluindo infertilidade, alterações no colesterol, aumento da pressão arterial, problemas cardiovasculares e mudanças físicas irreversíveis. A Anvisa já se posicionou contra a reposição generalizada de testosterona em mulheres, contestando a ideia de que o hormônio melhora a saúde, a disposição ou os efeitos do envelhecimento de forma ampla.

Testosterona e a Busca por um Corpo Transformado

Uma das combinações promovidas no mercado associa a testosterona a “canetas emagrecedoras”. Embora esses medicamentos auxiliem na redução do apetite e na perda de peso, é crucial entender que a perda de massa muscular também pode ocorrer. A testosterona, com seu efeito anabólico, é apresentada como forma de preservar a musculatura durante o emagrecimento.

A endocrinologista Danielle Brandão ressalta que, embora não haja interação medicamentosa proibida entre testosterona e canetas emagrecedoras, o uso conjunto depende de avaliação clínica individualizada. O emagrecimento, por si só, exige atenção, pois dietas muito restritivas podem levar à perda de massa muscular, e a busca por resultados físicos pode sobrepor as necessidades reais do organismo.

Os chamados “chips da beleza”, implantes hormonais manipulados que podem conter testosterona e outras substâncias como gestrinona, oxandrolona, estradiol e progesterona, também são oferecidos com a promessa de transformação corporal. Contudo, a Anvisa proíbe o uso de implantes hormonais manipulados à base de esteroides anabolizantes e hormônios androgênicos para fins estéticos, ganho de massa muscular ou melhora do desempenho esportivo.

Riscos dos Implantes Hormonais e a Regulamentação

Uma das principais preocupações com os implantes manipulados é a dificuldade de ajustar a dose e interromper a exposição ao hormônio. A retirada, em alguns casos, pode exigir um procedimento cirúrgico, como alerta Susan Davis, diretora do Programa de Pesquisa em Saúde da Mulher da Universidade Monash. “Eles não podem ser facilmente removidos caso uma mulher desenvolva efeitos adversos, pode ser necessária uma cirurgia”, afirma.

A oferta de cursos para profissionais que visam administrar implantes hormonais para fins estéticos é questionada por especialistas. Danielle Brandão aponta que, com exceção do Implanon (contraceptivo regulamentado), é proibido oferecer cursos sobre implantes hormonais manipulados, apesar de sua propaganda frequente nas redes sociais. O Conselho Federal de Medicina (CFM) também manifestou preocupação com a proliferação de cursos sobre terapias hormonais voltadas à estética e ao ganho de desempenho esportivo, vedando publicidade que estimule o uso ou apologie benefícios para tais finalidades.

Performance Esportiva e os Perigos do Uso Indiscriminado

Em doses acima das fisiológicas, a testosterona pode aumentar a síntese de proteínas e favorecer o ganho de massa muscular, um efeito desejado por praticantes de exercícios que buscam resultados rápidos. Roberto*, 41 anos, utilizou testosterona intramuscular por dois anos para esse fim, relatando maior disposição, força e recuperação muscular. No entanto, interrompeu o uso após desenvolver trombose, um risco associado ao uso de hormônios.

O uso de testosterona sem indicação médica pode levar à supressão da produção hormonal natural e de espermatozoides em homens, resultando em redução do volume testicular e infertilidade. Outros efeitos incluem acne, queda de cabelo, ginecomastia (aumento das mamas) e alterações na função sexual. Em mulheres, o excesso de andrógenos pode causar virilização, com aumento de pelos, queda de cabelo, irregularidade menstrual e alterações na voz e no clitóris, algumas das quais podem ser permanentes.

Saúde Mental, Libido e a Busca por Bem-Estar

A terceira promessa associada ao uso de hormônios é o combate ao cansaço, insônia, falta de disposição ou redução da libido. Rafaela Basetto, 40 anos, utilizou um implante de gestrinona para emagrecer, percebendo melhora na disposição e força, mas também enfrentou mudanças de humor, queda de cabelo, depressão e ganho de peso. Seu cabelo não voltou ao estado anterior mesmo após interromper o tratamento.

Em uma nova tentativa, Rafaela passou a usar testosterona em gel para melhorar a libido e o cansaço, mas os resultados não foram satisfatórios, levando-a a interromper o uso. Fernanda Camões, 40 anos, relatou que a testosterona injetável lhe causou acne, e a versão em gel não resolveu seu cansaço, apesar de aumentar seus níveis hormonais. Um protocolo hormonal mais recente, incluindo estradiol e testosterona, trouxe melhorias.

As histórias demonstram como a promessa hormonal pode ser atraente para quem lida com sintomas difíceis de medir. Contudo, a alteração dos níveis hormonais não garante a melhora dos sintomas nem comprova que sua causa seja hormonal. Cansaço, baixa libido e alterações metabólicas podem ter diversas origens, como qualidade do sono, alimentação, sedentarismo, doenças, medicamentos, saúde mental e deficiências nutricionais, conforme aponta Pedro Andrade.

“O hormônio é a cereja do bolo, mas a maior parte das alterações hormonais decorre de um estilo de vida inadequado ou de outro fator que não está sendo investigado”, explica Andrade. Ele destaca que a deficiência de ferro, por exemplo, pode afetar a saúde mental, mas sua relação com sintomas específicos requer avaliação clínica.

Quando a Reposição Hormonal é Indicada?

Nos homens, a reposição de testosterona é indicada quando há sintomas e sinais de deficiência hormonal, com níveis persistentemente baixos confirmados por exames. É fundamental investigar as causas dessa deficiência, pois um resultado isolado ou sintomas inespecíficos não são suficientes para o diagnóstico. Nas mulheres, a concentração baixa de testosterona isoladamente não indica tratamento; os níveis variam e não há um valor laboratorial único que determine a necessidade de reposição.

A principal indicação para o uso de testosterona em mulheres é o tratamento do transtorno do desejo sexual hipoativo na pós-menopausa, após avaliação clínica que considere outras possíveis causas. As evidências científicas não sustentam o uso do hormônio para melhorar a disposição, promover emagrecimento, aumentar massa muscular ou prevenir efeitos do envelhecimento. Quando o tratamento é considerado, a dose deve buscar manter concentrações fisiológicas, com preferência por formulações em gel, que permitem ajuste de dose, em detrimento de injeções de longa ação e implantes.

O CFM restringe o uso de esteroides androgênicos e anabolizantes para fins estéticos, ganho de massa muscular e melhora do desempenho esportivo. A prescrição deve estar vinculada a uma indicação clínica, e não apenas à busca por um resultado físico ou a um exame isolado. Termos como “modulação hormonal” e “terapia de otimização”, frequentemente usados nas redes sociais, constroem uma imagem de intervenção para bem-estar amplo, mas podem mascarar os riscos, segundo a linguista Jana Viscardi.

Para a psicóloga Gabriella Pontes, a promessa de transformação física pode se misturar à percepção que a pessoa tem de si mesma, sendo o cuidado excessivo uma tentativa de recuperar o controle diante de incertezas em outras áreas da vida. “O cuidado excessivo é muitas vezes uma tentativa de recuperar a sensação de controle diante de outras áreas da vida marcadas por incertezas, como trabalho, relacionamentos ou o próprio envelhecimento”, afirma.

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