Sobreviventes de Tragédia no Nepal Descrevem Momento em que Água Invadiu Túnel de Obra
O Nepal enfrenta uma tragédia sem precedentes após enchentes repentinas deixarem mais de mil mortos e milhares de desaparecidos. Trabalhadores de usinas hidrelétricas, essenciais para a produção de energia no país, relataram o terror vivido quando a água de um rio invadiu o túnel onde estavam.
Pemba Dundu Tamang, um dos sobreviventes, descreveu à BBC a força avassaladora da natureza. Uma rajada de ar repentina precedeu a inundação, que rapidamente tomou o túnel, arrastando tudo pelo caminho. A descrição detalha o pânico e a luta pela sobrevivência em meio ao caos.
A história de Tamang e outros trabalhadores destaca a vulnerabilidade humana diante de desastres naturais e a importância das operações de resgate em andamento. Conforme informações divulgadas pela BBC, o número de mortos no Nepal já ultrapassa mil, com cerca de quatro mil pessoas desaparecidas.
A Fuga Desesperada de Pemba Dundu Tamang
Tamang contou que sua equipe, composta por cerca de 30 pessoas, trabalhava na construção do revestimento de concreto de um túnel quando tudo aconteceu. Uma forte rajada de vento precedeu a chegada da água, arremessando placas de compensado e deslocando máquinas pesadas. Do lado de fora, casas já eram levadas pela correnteza.
“Eu corri em direção à entrada do túnel”, relatou Tamang. “A água vinha atrás de mim, e eu corria à frente dela.” Ele descreveu uma corrida de aproximadamente 20 minutos para escapar da enxurrada enquanto subia o terreno. Seu colega, Itha Ghale, confirmou a força da rajada de ar que quase os derrubou durante a fuga.
O Impacto Devastador das Enchentes no Nepal
As enchentes repentinas devastaram diversas regiões do Nepal, afetando especialmente as áreas próximas a rios. A força da água não poupou residências e infraestruturas, como os túneis das usinas hidrelétricas, que são vitais para a economia do país. Mais de 99% da eletricidade nepalesa é gerada por hidrelétricas.
Tamang e Ghale trabalhavam na construção da usina hidrelétrica Trishuli-3B superior, que estava prevista para ser inaugurada no próximo ano. A usina visava aumentar a geração de energia para a rede nacional. A tragédia interrompeu abruptamente esses planos e deixou um rastro de destruição.
Perda Familiar e o Peso da Sobrevivência
O drama de Tamang se estende à esfera pessoal. Ele perdeu seis parentes, incluindo sua mãe, irmão, cunhada e três sobrinhos, que estavam em casa perto do rio quando as enchentes atingiram a região. Apenas sua esposa, um filho e um sobrinho sobreviveram. “Eu sinto que a vida não tem mais sentido. Sobreviver é doloroso”, desabafou.
Seu colega Ghale também sofreu perdas significativas, com oito familiares mortos, incluindo sua mãe e filha mais velha. “Talvez não fosse meu destino morrer”, disse Ghale, enquanto sua esposa e três filhos sobreviveram. A incerteza sobre o futuro e a possibilidade de fome assombram Tamang, que questiona o próprio significado de ter sobrevivido.
Esforços de Resgate e Alertas de Desastre
As operações de resgate continuam intensas, com engenheiros bombeando ar para os túneis e o exército mobilizado para buscar sobreviventes e recuperar corpos. O porta-voz do Exército do Nepal, Raja Ram Basnet, afirmou que o trabalho é concentrado nas buscas e na prevenção de doenças. Na terça-feira, 119 pessoas foram resgatadas.
Tamang acredita que mais pessoas poderiam ter sido salvas se houvesse recursos adequados no local. Um relatório recente sugere que sinais de instabilidade na geleira foram observados dias antes do desastre, indicando que sistemas de alerta mais eficientes poderiam ter salvado vidas. Especialistas apontam que a velocidade da avalanche tornou sistemas convencionais ineficazes, mas um alerta abrangente poderia ter ajudado mais abaixo no curso do rio.
Especialistas da China, Índia e Nepal utilizam máquinas pesadas para remover escombros e tentar alcançar trabalhadores presos em outras usinas hidrelétricas. Tamang expressou a esperança de que mais sobreviventes sejam resgatados rapidamente.
