Estatal de Lula: Contrato de R$ 35 milhões com UFRJ abriga ‘exército’ eleitoral com ligações políticas
A PortosRio, estatal federal que administra portos no Rio de Janeiro, firmou um convênio de R$ 35 milhões com a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) para o desenvolvimento de estudos científicos. No entanto, uma investigação do UOL, com acesso a uma folha de pagamentos sigilosa de R$ 8,9 milhões, revela que parte significativa dos bolsistas contratados possui fortes ligações com o universo político.
A lista de beneficiários inclui cabos eleitorais, ex-candidatos, ex-funcionários de prefeituras, dirigentes partidários, advogados e parentes de políticos. A situação levanta questionamentos sobre o uso de verbas públicas e a influência política na gestão da estatal, especialmente em um ano eleitoral.
O Palácio do Planalto, ao ser questionado, negou que o presidente Lula tenha designado o ex-prefeito Waguinho para influenciar politicamente a empresa. Segundo o governo, as nomeações e a gestão das estatais seguem a legislação vigente. A reportagem detalha o envolvimento de figuras políticas e a origem do convênio, conforme apurado pelo UOL.
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A PortosRio, antiga Companhia Docas do Rio de Janeiro, firmou um convênio com a UFRJ, sem licitação, com repasse de verbas previsto até setembro deste ano, mês anterior às eleições. A investigação do UOL analisou a primeira parcela de R$ 5,6 milhões, que beneficiou 544 pessoas. Deste total, mais da metade, 305 bolsistas, está diretamente vinculada à classe política, recebendo R$ 3,3 milhões.
Entre os bolsistas estão cabos eleitorais, candidatos de eleições passadas, ex-funcionários da Prefeitura de Belford Roxo, dirigentes e filiados partidários, além de advogados e parentes de políticos. Um criador de jingles também figura na lista. A estatal, que administra portos como os do Rio de Janeiro, Itaguaí e Niterói, tem um orçamento de R$ 200 milhões para investimentos neste ano.
Influência Política e Relação com Waguinho
A PortosRio tornou-se uma área de influência do ex-prefeito Wagner Carneiro, o Waguinho (Republicanos), a quem o presidente Lula concedeu poder de influência política na empresa. Embora Waguinho não tenha vínculo empregatício com a estatal ou a universidade, sua irmã e um sobrinho ocupam cargos na PortosRio. Ele próprio trabalhou como assessor na empresa entre setembro de 2023 e março de 2024.
Lula e Waguinho se aproximaram em 2022, quando o ex-prefeito apoiou o petista na Baixada Fluminense. Após a eleição, Lula nomeou a esposa de Waguinho, Daniela Carneiro, para o Ministério do Turismo. O presidente já mencionou publicamente o apoio de Waguinho, destacando sua gratidão.
Alegações e Defesas das Partes
A PortosRio declarou que não firmou contratos individuais com os bolsistas, mas sim um convênio com a UFRJ para assistência técnica e científica. A estatal afirma não ter cadastro para identificar filiação político-partidária e não valida a metodologia ou as conclusões do levantamento do UOL. A UFRJ explicou que os bolsistas são divididos em dois grupos: os de apoio técnico-científico, selecionados pela universidade, e os do programa Capacita Portos, indicados pela PortosRio.
Waguinho e Daniela Carneiro negaram participação na seleção de bolsistas ou em outros procedimentos administrativos. O convênio, que prevê o repasse de verbas em três parcelas, foi suspenso e depois restabelecido, com a segunda parcela atrasada. O contrato estipula que os recursos devem ser aplicados em estudos científicos e ações de integração entre portos e comunidades.
Conexões Familiares e Político-Partidárias
A reportagem detalha casos específicos de beneficiários com ligações políticas. Alex Pagniez, primo de um ex-vereador preso sob suspeita de chefiar milícia em Belford Roxo, recebeu R$ 15 mil. A família do assessor de Relações Institucionais da PortosRio, Patrick Senhorinho, recebeu R$ 150 mil, incluindo pais e irmãos. Senhorinho atuava no gabinete da deputada Daniela Carneiro antes de assumir o cargo na estatal.
Outros beneficiários incluem o ex-prefeito de São Pedro da Aldeia, Claudio Chumbinho, que se tornou superintendente do porto de Niterói e recebeu R$ 10 mil de bolsa. O presidente do Republicanos em Maricá, Fabinho Sapo, e sua esposa receberam R$ 20 mil. O levantamento do UOL indica que os pagamentos chegaram a aliados em pelo menos 48 cidades do estado do Rio de Janeiro.
