China se une ao Brasil na OMC contra tarifas dos EUA: um movimento estratégico para frear a guerra comercial
O Brasil recebeu um apoio significativo em sua disputa comercial contra os Estados Unidos. A China solicitou participação nas consultas da Organização Mundial do Comércio (OMC) sobre a ação brasileira contra as tarifas impostas pelo governo de Donald Trump. Essa medida é vista por analistas como um reforço importante para o Brasil, elevando o peso político do caso e fortalecendo a argumentação contra as políticas comerciais americanas.
A entrada da China, principal potência comercial global, nas discussões da OMC confere ao pleito brasileiro um aliado poderoso. Embora o apoio seja inicialmente indireto, a presença chinesa sinaliza uma frente unida contra o que muitos consideram práticas comerciais injustificadas. A China possui um poder de barganha e retaliação muito maior contra os EUA do que o Brasil, o que pode criar um cenário de maior equilíbrio nas negociações futuras.
A decisão da China de se juntar às consultas brasileiras não é vista como um ato de altruísmo, mas sim como uma estratégia com interesses próprios. A potência asiática também tem sido alvo de tarifas americanas e busca fortalecer sua posição em fóruns internacionais, contrapondo-se à abordagem unilateral dos EUA em detrimento dos mecanismos multilaterais. Conforme informações divulgadas pela BBC News Brasil, essa ação demonstra um embate entre grandes potências, com o Brasil no meio desse conflito geopolítico.
Brasil contesta tarifas americanas na OMC
No final do mês passado, o Brasil iniciou o processo na OMC ao apresentar um pedido de consultas contra os Estados Unidos, contestando duas medidas tarifárias do governo Trump. O Ministério das Relações Exteriores brasileiro declarou que as tarifas americanas são “injustificadas e incompatíveis” com as obrigações internacionais dos EUA. Uma das medidas questionadas é a tarifa adicional de 25% sobre produtos brasileiros, decorrente de uma investigação americana. A segunda medida impôs uma tarifa de 12,5% sobre produtos brasileiros, como resultado de uma investigação envolvendo 60 economias.
O peso político da aliança com a China
A participação da China nas consultas da OMC é interpretada por especialistas como um fortalecimento da posição brasileira. Pablo Ibañez, professor da UFRRJ e integrante do Brics Policy Center, destaca que o pedido chinês “reforça o peso político do caso brasileiro e fortalece o argumento central contra a Seção 301 dos EUA”. Essa seção refere-se a uma lei americana que permite a imposição de tarifas com base em investigações de práticas comerciais consideradas desleais.
Ana Garcia, professora de Relações Internacionais da UFRRJ, ressalta a importância da China como aliada. “Para o Brasil, isso é importante porque o país ganha não apenas um aliado, mas ‘o’ aliado. A China é hoje a principal potência mundial em termos de comércio, investimentos e também em termos geopolíticos”, afirma Garcia. Ela aponta que a China tem maior capacidade de barganha e retaliação contra os EUA, onde o Brasil é mais vulnerável.
Interesses estratégicos e o equilíbrio brasileiro
Ibañez enfatiza que a China age em defesa de seus próprios interesses ao se envolver na disputa. “A China, ao fazer esse movimento, não está simplesmente sendo ‘boazinha’ e defendendo um país prejudicado. Ela também possui interesses próprios”, explica o professor. Um desses interesses é combater os EUA em foros internacionais, em um cenário onde um país reduz a importância dos mecanismos multilaterais e outro busca se apresentar como porta-voz do multilateralismo.
Apesar do apoio chinês, os analistas alertam que isso não implica um alinhamento automático entre Brasil e China. O Brasil busca manter relações equilibradas com ambas as potências. “O meu temor é que essa situação seja interpretada como um alinhamento direto do Brasil à China. O Brasil não é um país alinhado diretamente a nenhum desses dois grandes centros de poder”, ressalta Ibañez. Ele lembra que o Brasil tem uma relação comercial forte com a China, sendo seu principal parceiro, mas também precisa manter laços com os EUA, que têm demonstrado interesse em ampliar sua influência na América Latina.
A fragilidade da OMC e os efeitos limitados
Ambos os especialistas apontam que a ação brasileira na OMC ocorre em um momento de enfraquecimento da capacidade de ação da organização. “Considero fundamental destacar que os mecanismos multilaterais de resolução de contenciosos estão muito enfraquecidos”, afirma Ibañez. Ele argumenta que, mesmo com uma decisão favorável ao Brasil, os efeitos práticos sobre as ações americanas podem ser limitados, dada a tendência dos EUA de agir unilateralmente.
Ana Garcia complementa que a OMC já enfrentava dificuldades antes mesmo das tarifas de Trump, com a perda de força diante da preferência de grandes estados por ações bilaterais. “As negociações multilaterais de comércio sempre constituíram um espaço relativamente forte, apesar das crises econômicas e disputas geopolíticas. Mas, como várias outras instituições multilaterais, a OMC foi perdendo força à medida que os grandes Estados passaram a privilegiar ações bilaterais”, pontua Garcia.
A aposta do governo brasileiro no multilateralismo, ao acionar os EUA na OMC, reflete uma postura tradicional da diplomacia brasileira. Contudo, a expectativa de resultados práticos imediatos é moderada, dada a complexidade do cenário internacional e a força dos atores envolvidos. O embate comercial se insere em uma disputa mais ampla sobre a relevância e o futuro das instituições multilaterais globais.
