Guerra no Líbano: Milhares de Grávidas em Risco com Colapso da Saúde e Deslocamentos Forçados

BRASIL

Conflito no Líbano coloca milhares de mulheres grávidas em risco iminente devido ao colapso do sistema de saúde e deslocamentos forçados.

A guerra que assola o Oriente Médio tem um impacto devastador sobre a população civil, e as mulheres grávidas no Líbano enfrentam uma situação particularmente crítica. Com a escalada dos conflitos após a ofensiva israelense, milhares de gestantes foram forçadas a deixar suas casas, buscando refúgio em abrigos com condições insalubres e acesso limitado a cuidados médicos.

A instabilidade e a violência têm levado ao colapso do já fragilizado sistema de saúde libanês. Hospitais e centros de saúde foram danificados ou fechados, e a escassez de suprimentos médicos e profissionais qualificados agrava o cenário. Essa crise humanitária expõe gestantes a riscos severos, desde complicações na gravidez até a impossibilidade de receberem o acompanhamento adequado para um parto seguro.

A situação de Nour, de 32 anos, que fugiu de Beirute grávida de quatro meses, é um retrato do desespero. Vivendo em um abrigo coletivo, ela se preocupa diariamente com a segurança de seu bebê em meio à falta de privacidade e saneamento. Sua história, compartilhada com a DW, reflete a angústia de ao menos 13.500 mulheres grávidas deslocadas, conforme dados do Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA).

Deslocamento Forçado e Condições Precárias em Abrigos

A ofensiva israelense desde março resultou em um número alarmante de deslocados, com cerca de 1,2 milhão de libaneses forçados a deixar suas casas. Entre eles, milhares de mulheres grávidas buscam segurança em abrigos públicos que já operam no limite de sua capacidade. A falta de privacidade, o saneamento inadequado e a escassez de recursos básicos nesses locais aumentam significativamente os riscos à saúde das gestantes e de seus bebês.

A incerteza paira sobre o futuro, com as negociações para um cessar-fogo ainda frágeis. A maioria dos deslocados ainda não conseguiu retornar para suas residências, prolongando a permanência em condições precárias. Para gestantes, cada dia em um ambiente inseguro representa um aumento na preocupação com a saúde e o bem-estar de seus filhos ainda não nascidos.

Sistema de Saúde à Beira do Colapso

O sistema de saúde do Líbano, que já enfrentava desafios consideráveis antes da escalada do conflito, encontra-se agora em um estado crítico. De acordo com o UNFPA, o acesso a cuidados maternos está se deteriorando rapidamente. A Organização Mundial da Saúde (OMS) informou que pelo menos 51 centros de atenção primária à saúde foram forçados a fechar devido aos combates, que também ceifaram a vida de dezenas de profissionais de saúde.

Hospitais que continuam operando lutam para atender à demanda crescente. Zeina Khouri Stevens, vice-presidente de serviços de saúde do LAU Medical Center em Beirute, alertou para a dificuldade em obter suprimentos e a necessidade de racionar medicamentos caso o conflito se prolongue. Essa instabilidade compromete ainda mais a capacidade do sistema de oferecer atendimento essencial.

Gestantes Isoladas no Sul do Líbano em Risco Severo

A situação é ainda mais alarmante no sul do Líbano, onde o acesso a unidades médicas é severamente restrito. Estima-se que cerca de 1.700 mulheres grávidas estejam entre as aproximadamente 150 mil pessoas isoladas do restante do país. Philipose, do UNFPA, ressaltou que essas mulheres correm um risco grave, dada a dificuldade de acesso a cuidados obstétricos e de emergência.

Esforços de ajuda humanitária estão em andamento, com unidades médicas móveis e distribuição de kits de saúde reprodutiva. No entanto, a resposta é insuficiente diante da magnitude da crise. O apelo emergencial do UNFPA para o período de março a maio, que solicitava 12 milhões de dólares para atender 225 mil pessoas, recebeu apenas uma fração do valor necessário. A escalada contínua do conflito supera as projeções iniciais, evidenciando a urgência de maior apoio internacional.

Crise Econômica Agrava Vulnerabilidade do Sistema de Saúde

A vulnerabilidade do sistema de saúde libanês não é um fenômeno recente. Jade Khx’alife, médica de saúde pública e epidemiologista, explicou que o sistema já estava sobrecarregado com o fluxo de refugiados sírios desde 2013, e o colapso econômico no final de 2019 agravou drasticamente a situação. A pandemia de covid-19, a explosão no porto de Beirute em 2020 e o vácuo político prolongado contribuíram para a deterioração contínua.

Mesmo com a estratégia nacional de saúde “Visão 2030” lançada em janeiro de 2023, o sistema permanece altamente vulnerável. O acesso aos serviços de saúde é desigual, com hospitais privados atendendo a parcela da população com maior poder aquisitivo, enquanto unidades públicas e financiadas por ONGs ou pelo Hezbollah atendem aos mais necessitados. Barreiras de custo, localização e conexões pessoais se intensificaram com o conflito atual, tornando o acesso ainda mais desafiador para mulheres como Yara, de 28 anos, que teme não encontrar um hospital público em funcionamento para dar à luz seu bebê.

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