Guerra no Irã pode desencadear nova corrida nuclear global: Especialistas alertam para risco de proliferação após ataques

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Guerra no Irã pode levar o mundo a uma nova corrida por armas nucleares, alertam especialistas

O conflito em andamento no Irã, iniciado com ataques dos Estados Unidos e Israel no fim de fevereiro, levanta sérias preocupações sobre um possível novo cenário de corrida armamentista nuclear. A justificativa para impedir o desenvolvimento de armas nucleares pelo Irã pode, ironicamente, impulsionar outros países a buscarem o mesmo poder.

Especialistas em proliferação nuclear ouvidos pela BBC News Brasil apontam que a percepção de insegurança e a fragilidade das garantias de segurança internacionais podem levar nações a considerar armas atômicas como a derradeira forma de dissuasão contra agressões de potências maiores.

A incerteza sobre a capacidade dos EUA em garantir a segurança de seus aliados, especialmente após ataques de retaliação do Irã a países como Emirados Árabes e Arábia Saudita, reforça a ideia de que a dependência da proteção americana é arriscada. Conforme informação divulgada pela BBC News Brasil, essa dinâmica pode impulsionar a busca por capacidade nuclear doméstica como fator de dissuasão.

Ameaça de Proliferação Nuclear Aumenta com Conflito no Irã

Cientistas políticos e especialistas em segurança alertam para um cenário preocupante. Reid Pauly, professor de Segurança e Política Nuclear da Universidade Brown, destaca a ironia de a guerra ter como pretexto impedir o Irã de obter a bomba. Ele prevê que um governo iraniano sobrevivente certamente avaliará a aquisição de armas nucleares como forma de autoproteção contra futuros ataques.

John Erath, diretor sênior do Centro para o Controle de Armas e Não Proliferação, descreve a situação como uma continuação de decisões equivocadas. Ele ressalta que os ataques ao programa nuclear iraniano ocorreram em meio a negociações, minando esforços diplomáticos e potencialmente levando o Irã a concluir que a posse de armas nucleares seria sua maior segurança.

A Arábia Saudita, por meio de seu príncipe herdeiro Mohammad bin Salman, já manifestou que seguiria o mesmo caminho caso o Irã desenvolvesse a bomba atômica. Essa declaração, segundo a BBC News Brasil, evidencia a fragilidade do regime de não proliferação nuclear.

O Papel do Tratado de Não Proliferação e a Desconfiança Internacional

O Irã é signatário do Tratado de Não Proliferação de Armas Nucleares (TNP), acordo que visa prevenir a disseminação dessas armas. No entanto, o país sempre negou buscar armamento nuclear, afirmando que seu programa de enriquecimento de urânio tem fins pacíficos. A desconfiança internacional, contudo, persiste devido a divergências sobre níveis de enriquecimento e mecanismos de monitoramento.

A saída dos Estados Unidos do acordo nuclear com o Irã em 2018, durante o mandato de Trump, acentuou as tensões. Embora avaliações da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) indicassem que o Irã não estava próximo de fabricar uma bomba, os recentes ataques podem ter mudado essa perspectiva.

Alicia Sanders-Zakre, diretora de políticas da Campanha Internacional para a Abolição de Armas Nucleares (ICAN), expressou preocupação com os ataques, considerando-os contrários aos objetivos de não proliferação. Ela aponta que a impossibilidade de inspetores internacionais acessarem instalações nucleares iranianas representa um risco significativo.

Fatores que Impulsionam a Corrida Nuclear

Diversos fatores contribuem para o aumento do risco de uma nova corrida nuclear. Erath identifica três impulsionadores principais: os esforços da China em expandir e modernizar seu arsenal nuclear, a guerra da Rússia contra a Ucrânia, que pode legitimar o uso de ameaças nucleares como instrumento político, e a percepção de imprevisibilidade dos Estados Unidos, gerando insegurança tanto para aliados quanto para adversários.

A retirada do tratado Novo START entre EUA e Rússia no início de fevereiro, sem substituição, também enfraquece os mecanismos de controle de armas. A experiência da Ucrânia, que abriu mão de seu arsenal nuclear em troca de garantias de segurança e foi posteriormente invadida pela Rússia, é frequentemente citada como um exemplo de que a ausência de armas nucleares pode levar à vulnerabilidade.

Uma Nova Onda de Proliferação é Inevitável?

Apesar dos sinais preocupantes, analistas ressaltam que uma nova onda de proliferação nuclear não é um desfecho inevitável. Pauly argumenta que, embora arsenais nucleares ofereçam dissuasão, o caminho para adquiri-los é repleto de perigos, custos e sanções. Ele sugere que pode ser racional para um país confiar em armas convencionais, pois armas nucleares podem não valer a complexidade e os riscos envolvidos.

A comunidade internacional precisa se manter firme contra as armas nucleares. Sanders-Zakre enfatiza que a existência de países com armas nucleares incentiva outros a considerarem o mesmo, reforçando a necessidade de trabalhar pela abolição total dessas armas. A corrida armamentista nuclear, em última análise, não interessa a ninguém.

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