Irã em Guerra: 3 Episódios Históricos da Segunda Metade do Século 20 Que Podem Prever o Futuro do Conflito no Golfo Pérsico

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Lições da História Para a Guerra no Irã: Crise de Suez, Yom Kippur e Irã-Iraque Moldam o Presente

A guerra iniciada contra o Irã, envolvendo Estados Unidos e Israel, apesar de sua imprevisibilidade, segue caminhos que a história pode nos ajudar a decifrar. Especialistas têm recorrido ao passado recente para compreender as convulsões atuais no Golfo Pérsico e prever seus desdobramentos.

Três episódios marcantes da segunda metade do século 20 oferecem insights valiosos sobre as táticas e consequências deste conflito. A forma como esses eventos foram conduzidos e seus resultados podem influenciar diretamente as decisões tomadas hoje.

Desde o bloqueio de rotas marítimas vitais até o uso do petróleo como arma, as lições do passado são claras. Compreender esses momentos históricos é fundamental para analisar o presente e antecipar o futuro da guerra no Irã. Essas informações foram divulgadas por especialistas em análise internacional.

Crise de Suez (1956): O Poder das Artérias Econômicas

O ataque com mísseis do Iêmen contra Israel, apoiado pelo Irã, abriu uma nova frente, aumentando o temor de transtornos para a economia mundial. O grupo Houthi, com capacidade de atacar navios no Mar Vermelho, pode prejudicar seriamente o acesso ao Canal de Suez, por onde passa cerca de 30% do tráfego mundial de contêineres. Especialistas comparam essa tática à Crise de Suez de 1956.

Na ocasião, o presidente egípcio Gamal Abdel Nasser nacionalizou o canal, controlando uma das principais vias de transporte de petróleo. Em resposta, França, Reino Unido e Israel tentaram retomar o controle, mas sem sucesso. O historiador americano Alfred W. McCoy aponta que Nasser afundou navios, bloqueando o canal e interrompendo o suprimento de petróleo para a Europa.

Para os Estados Unidos da época, sob Dwight D. Eisenhower, o receio era de uma escalada na Guerra Fria. A intervenção americana forçou a retirada britânica e francesa. Jeremy Bowen, editor de internacional da BBC, ressalta que a crise marcou o fim da era do Reino Unido como potência mundial, evidenciando como o controle de vias econômicas vitais pode alterar o equilíbrio de poder global.

Guerra do Yom Kippur (1973): O Petróleo Como Arma de Influência

Menos de 20 anos após Suez, em 1973, a Guerra do Yom Kippur entre Israel, Egito e Síria trouxe outra lição sobre o uso de recursos como arma. Após os EUA abastecerem Israel, o mundo árabe impôs um embargo de petróleo, elevando massivamente seu preço e causando prejuízos à Europa Ocidental.

O então ministro do Petróleo da Arábia Saudita, xeque Ahmed Zaki Yamani, descreveu o controle da produção como a “arma do petróleo”, capaz de levar ao colapso as economias globais. O embargo, que durou cinco meses, teve impactos sentidos por uma década, com inflação e aumento das taxas de juros nos países dependentes de petróleo.

Embora o petróleo não tenha a mesma dominância de 50 anos atrás, com fontes de energia mais diversificadas crescendo, ele ainda é crítico. A lição de 1973 é fundamental para Donald Trump, pois os EUA, apesar de produzirem mais energia, ainda importam petróleo e são vulneráveis ao seu custo global. Parceiros asiáticos, menos diversificados, sofrem mais.

Guerra Irã-Iraque (1980-1988): Bloqueio do Estreito de Ormuz

A guerra entre Irã e Iraque, que dominou os anos 1980, oferece exemplos mais recentes de como adversários de Washington podem bloquear artérias econômicas vitais. Nos últimos anos do conflito, navios no Estreito de Ormuz eram atacados tanto pelo Irã quanto pelo Iraque, numa tentativa de atrair potências mundiais para o confronto.

Os ataques se tornaram tão graves que o Kuwait pediu ajuda internacional. Washington, para não ser ultrapassado pela União Soviética, iniciou a Operação Earnest Will em 1987, escoltando navios. Contudo, a operação se tornou um constrangimento quando minas iranianas atingiram um navio sob proteção americana, evidenciando as limitações das capacidades de varredura de minas dos EUA.

Os paralelos com a situação atual, onde Trump busca apoio para manter o Estreito de Ormuz aberto, são óbvios. No entanto, o desafio é maior hoje, pois as ferramentas de guerra evoluíram, incluindo drones, e o Irã não enfrenta uma guerra prolongada contra o Iraque. A história, portanto, oferece um mapa de possíveis desdobramentos para a guerra no Irã.

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