Afeganistão: 6 Milhões de Deportados Forçados a Recomeçar em Terra Governa Pelo Talebã

BRASIL

O drama de 6 milhões de afegãos deportados forçados a recomeçar a vida em seu país de origem, sob o regime do Talebã.

Milhões de afegãos, muitos nascidos no Paquistão ou no Irã, estão sendo deportados de volta ao Afeganistão. Essa onda de retornos forçados representa o maior deslocamento de pessoas entre fronteiras da atualidade, forçando indivíduos e famílias a reconstruir suas vidas em um país governado pelo Talebã, onde muitos nunca viveram.

Até agosto deste ano, mais de 1 milhão de afegãos foram obrigados a retornar do Paquistão e do Irã. A situação é descrita como desoladora, com pessoas chegando sem ter para onde ir, dependendo de abrigos temporários montados por organizações humanitárias. A falta de documentos tem sido o principal motivo alegado pelos países vizinhos para as deportações, embora organizações de direitos humanos apontem que afegãos com registro oficial também estão sendo afetados.

O Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (Acnur) descreve a situação como sem precedentes na história recente. As famílias deportadas enfrentam a dura realidade de um país que, além de ser governado pelo Talebã, sofre com cortes na ajuda internacional e uma crise humanitária severa, com milhões necessitando de assistência para sobreviver.

Um Retorno a um País Desconhecido

Nazia, uma mulher de 35 anos, cruzou a fronteira do Paquistão para o Afeganistão sem nunca ter pisado em solo afegão. Nascida no Paquistão, ela e grande parte de sua família, incluindo oito irmãs e seus filhos, foram forçados a deixar suas casas. “É bom estar no meu próprio país”, diz Nazia, mas logo em seguida lamenta: “Mas nunca estive no Afeganistão, e muita gente aqui não tem nem pão suficiente para comer”.

Sarwar, outro afegão deportado, deixou o Afeganistão há 45 anos, durante a invasão soviética. Ele relata que a maioria de seus irmãos nasceu no Paquistão. “Passamos muito tempo lá, então é claro que fiquei arrasado quando nos obrigaram a deixar nossa casa”, conta Sarwar. Apesar da dor, ele também expressa alívio por ter se livrado do “assédio da polícia do Paquistão”, relatando que todas as famílias ouvidas pela reportagem sofreram preconceito e assédio das autoridades paquistanesas.

Paquistão e Irã Endurecem Políticas Migratórias

O Paquistão e o Irã têm intensificado as medidas contra imigrantes sem documentação, alegando que os afegãos deveriam retornar ao seu país. Ambos os governos citam preocupações com a segurança e os custos gerados pela presença de refugiados. O Paquistão já declarou publicamente que nem mesmo afegãos com cartões de registro estão isentos de deportação.

A Human Rights Watch denunciou “operações de porta em porta, buscas em residências durante a madrugada e prisões sem mandado” no Paquistão. No Irã, as deportações em massa ganharam força após conflitos regionais, com acusações de que o governo estaria usando o clima pós-guerra para “lançar suspeitas sobre os imigrantes afegãos, acusando-os de espionagem”.

Um Futuro Incerto em um País Sob o Talebã

A situação no Afeganistão é alarmante. O Acnur estima que 21,9 milhões de pessoas, quase metade da população, precisarão de ajuda para sobreviver neste ano. O Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) alerta que 1 milhão de crianças enfrentam desnutrição grave. A crise é agravada pelas restrições impostas pelo Talebã, especialmente contra mulheres e meninas, que dificultam a obtenção de apoio internacional.

O ministro das Relações Exteriores do Talebã, Amir Khan Muttaqi, admite a necessidade de ajuda e que o retorno de afegãos exerce pressão sobre o país. Ele, no entanto, vê o retorno como benéfico a longo prazo. Muttaqi considera questões como a educação das meninas “assuntos internos” e expressa confiança no aprofundamento das relações com países vizinhos, apesar do isolamento internacional do regime.

O medo é palpável entre os retornados. Um ex-segurança afegão, que foi deportado do Irã e depois do Paquistão, vive escondido por temer represálias, apesar da anistia anunciada pelo Talebã. Ele não confia na promessa, pois viu muitos colegas serem mortos. A palavra “nada” ecoa entre as famílias, descrevendo o ponto de partida de suas novas vidas, forçadas a recomeçar do zero no Afeganistão.

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