Banco Master: PF Revela “Linha de Montagem Digital” para Forjar Documentos de Crédito Consignado

VARIEDADES

PF desarticula esquema de falsificação de documentos no Banco Master usando tecnologia para simular operações de crédito.

A Polícia Federal descobriu um sofisticado esquema de falsificação de documentos no Banco Master, que utilizava uma verdadeira “linha de montagem digital” para simular a legitimidade de operações de crédito consignado. A fraude, que envolveu a suposta cessão de R$ 7,15 bilhões em ativos ilíquidos, tinha como objetivo enganar o Banco de Brasília (BRB).

Conforme apuração da PF, dados reais de clientes eram combinados com ferramentas de edição de documentos, programação e produção em massa para criar dossiês fraudulentos. A estrutura permitia a fabricação de documentos com aparência de autenticidade, mas que escondiam a verdadeira origem e data de formalização das operações.

Essa descoberta detalha como a tecnologia, em vez de garantir a segurança, foi usada para maquiar transações financeiras. A investigação aponta para uma relação triangular entre a Tirreno Consultoria (usada como fachada), o Banco Master e o BRB, onde a simulação de ativos sem lastro se tornou o cerne da operação.

Operação “Linha de Montagem”: Como os Documentos Eram Fabricados

A investigação da Polícia Federal detalhou um processo minucioso para a fabricação de documentos falsos. A estrutura funcionava com etapas bem definidas, combinando dados reais de clientes, extraídos de sistemas internos, com a produção em massa de documentos utilizando ferramentas como o Microsoft Office e a edição de arquivos PDF. A área de tecnologia do banco desenvolveu programas específicos para otimizar esse processo.

Esses programas eram utilizados para separar páginas de assinaturas de documentos originais, que depois eram reaproveitadas em novos contratos. O objetivo era dar uma aparência de autenticidade aos dossiês que seriam apresentados como créditos legítimos. A PF identificou que, quando informações cruciais como a data de formalização poderiam revelar a fraude, elas eram propositalmente apagadas ou alteradas.

Em um dos casos analisados, um Termo de Consentimento que originalmente constava a data de 24 de fevereiro de 2023 teve essa informação removida em julho de 2025, demonstrando a intenção de ocultar a antiguidade dos documentos utilizados na fraude.

Da Extração de Dados à Montagem Final: As Etapas da Fraude

O processo iniciava com a extração de dados reais de clientes de operações antigas. Essas informações eram organizadas em planilhas para servirem de base na criação dos documentos. Em seguida, utilizando recursos como a mala direta do Word, eram produzidas em massa procurações e outros documentos. A tecnologia permitia replicar a mesma estrutura documental para centenas ou milhares de pessoas.

A etapa seguinte envolvia a manipulação de assinaturas digitais. Programas desenvolvidos em C# eram usados para extrair páginas de assinatura de documentos originais, que posteriormente eram inseridas em novos contratos. A pericia descobriu que, mesmo com assinaturas digitais, era possível identificar a manipulação, pois os registros criptográficos revelavam a data real da assinatura, muitas vezes posterior à data aparente no documento.

Para evitar a detecção, datas e horários que pudessem indicar a origem dos documentos eram removidos através da edição de PDFs. Por fim, as Cédulas de Crédito Bancário (CCBs), procurações e termos editados eram reunidos em um único arquivo PDF, formando o dossiê completo para cada operação. Essa montagem era realizada com ferramentas como o PDF24.

Apagando Rastros: A Tentativa de Ocultar a Falsificação

A sofisticação do esquema se estendia à tentativa de apagar todos os vestígios da fraude. Até mesmo comprovantes bancários eram alvo de alterações, buscando remover informações como evento, número do contrato e histórico, que poderiam vincular as operações ao seu contexto original. Um exemplo citado é a tentativa de remover a informação “LIBERAÇÃO CREDCESTA VIA PIX” dos comprovantes.

No entanto, a escala da operação apresentava desafios. Alterar manualmente milhares de comprovantes se mostrou uma tarefa complexa, evidenciando um dos limites da linha de montagem digital. Apesar das tentativas de ocultação, registros digitais, como a diferença entre as datas de assinatura e a data aparente nos documentos, permitiram à perícia digital identificar as manipulações.

A investigação também revelou que a cúpula do Banco Master estava ciente e participava ativamente do esquema. O proprietário do banco, Daniel Vorcaro, solicitou um “kit” de operações com assinatura digital, demonstrando que a documentação falsificada chegava aos escalões superiores da instituição.

O Papel da Tecnologia na Construção da Fraude

A tecnologia desempenhou um papel central em todas as fases da fraude. Desde a extração de dados com consultas SQL e planilhas Excel, passando pela produção em massa de documentos com Word e a manipulação de PDFs com C# e Adobe Acrobat, até a montagem final com PDF24, cada ferramenta foi empregada para dar forma e aparente legitimidade às operações fraudulentas.

A Polícia Federal detalhou a participação de diversos funcionários do Banco Master, desde a área de TI até o back office, cada um com uma função específica na cadeia de produção de documentos falsos. A investigação aponta que o objetivo era sustentar documentalmente a existência de uma carteira de créditos atribuída à Tirreno Consultoria, ocultando o fato de que esses créditos não possuíam lastro real.

Mesmo com a remoção de datas e a alteração de documentos, a própria estrutura digital deixou vestígios. A perícia digital conseguiu comprovar que documentos apresentados com datas anteriores haviam sido, na verdade, assinados posteriormente, expondo a complexa tentativa de simular operações financeiras inexistentes.

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