Bebê dado como morto ‘ressuscita’ na UTI: Entenda o Fenômeno de Lázaro e o protocolo de constatação de óbito no Brasil
Um caso surpreendente chocou a equipe médica e os familiares na UTI Neonatal da Santa Casa de Rio Claro, interior de São Paulo. Um bebê, que havia sido declarado como morto após uma parada cardiorrespiratória de 45 minutos, apresentou sinais vitais e retornou à unidade de terapia intensiva. O episódio, classificado por muitos como um milagre, levanta importantes questionamentos sobre os protocolos de constatação de óbito e a complexidade da medicina.
O retorno espontâneo da circulação, conhecido como Fenômeno de Lázaro, é um evento incomum, mas registrado na literatura médica. Embora raro, ele demonstra que o corpo humano pode apresentar reações inesperadas, mesmo após o encerramento das manobras de reanimação. A investigação sobre o ocorrido busca entender os fatores que podem ter levado a essa situação extraordinária.
A Santa Casa de Rio Claro afirmou ter seguido rigorosamente os protocolos estabelecidos pela Sociedade Brasileira de Pediatria ao declarar o óbito. No entanto, o caso impulsiona a discussão sobre a segurança e a precisão dos procedimentos em situações extremas, ressaltando a necessidade de aprimoramento contínuo das práticas médicas. Conforme informações divulgadas pelo hospital, o bebê deu entrada na UTI Neonatal logo após o nascimento com quadros clínicos que demandavam cirurgia especializada fora do município.
O rigoroso protocolo brasileiro para constatação de óbito
No Brasil, a declaração de óbito é um ato exclusivo do médico, seguindo normas estabelecidas pelo Conselho Federal de Medicina (CFM). O emergencista Felipe Liger, do Hospital Alemão Oswaldo Cruz, explica que a legislação brasileira é especialmente rigorosa ao exigir a correlação entre o exame clínico detalhado e a confirmação instrumental, sempre que possível. O monitoramento eletrônico, com análise de eletrocardiograma para identificar a assistolia (a conhecida “linha reta”), adiciona uma camada extra de segurança ao procedimento.
Liger destaca que os protocolos internacionais não estabelecem um tempo mínimo obrigatório de observação antes da declaração do óbito. A decisão cabe ao médico, que deve considerar a causa da parada cardiorrespiratória e realizar uma análise criteriosa. A combinação do exame clínico com a monitorização instrumental reforça a avaliação, mas a complexidade do corpo humano pode, em casos raros, “enganar” até mesmo profissionais experientes.
O que explica o Fenômeno de Lázaro?
Ainda não há uma explicação única e definitiva para o Fenômeno de Lázaro. Uma das hipóteses médicas sugere que a interrupção das manobras de reanimação pode reduzir a pressão dentro do tórax, permitindo que o sangue retorne ao coração e gere alguns batimentos. Outra possibilidade é o efeito tardio de medicamentos administrados durante o procedimento, como a adrenalina.
O caso específico do bebê em Rio Claro não permite, de imediato, concluir por erro médico. Sem acesso ao prontuário, é difícil apontar uma causa exata. Hipotermia grave, efeito de medicamentos, o próprio Fenômeno de Lázaro ou uma eventual falha na avaliação clínica são algumas das possibilidades em análise.
Investigação de causa raiz e a busca por aprimoramento
Eventos adversos ou extraordinários como este geralmente levam à instauração de uma investigação de causa raiz nos hospitais. O objetivo, segundo Liger, é identificar possíveis falhas no sistema que possam ser aprimoradas, e não apenas buscar responsáveis. “O corpo humano não é uma ciência exata”, ressalta o médico, enfatizando que diversas condições podem surpreender até mesmo os profissionais mais qualificados.
A Santa Casa de Rio Claro afirmou que o caso surpreendeu toda a equipe e que, para muitos, foi um “verdadeiro milagre”. A unidade reitera seu compromisso com a ciência, a ética e a transparência, reconhecendo a extraordinariedade do acontecimento. O hospital detalhou que, no dia 15 de julho, o paciente apresentou piora clínica, evoluindo para parada cardiorrespiratória. Manobras de reanimação foram conduzidas por cerca de 45 minutos, em conformidade com os protocolos da Sociedade Brasileira de Pediatria, antes da constatação do óbito.
Procedimentos legais e acolhimento familiar após a constatação
Após a constatação do óbito, o bebê permaneceu na UTI Neonatal por aproximadamente uma hora para trâmites legais e para o acolhimento dos pais. Em seguida, conforme o protocolo institucional, foi encaminhado a outro setor para aguardar a retirada do corpo pela instituição definida pela família. O hospital dispõe de uma UTI Neonatal equipada e uma equipe altamente capacitada, incluindo a médica responsável pela reanimação, que possui 14 anos de atuação em Neonatologia.
