Brasil, UE, Canadá e Quênia unem forças pelo multilateralismo em manifesto divulgado no Financial Times
Às vésperas da Assembleia Geral da ONU, Brasil, União Europeia, Canadá e Quênia apresentaram uma nova frente diplomática em defesa do multilateralismo. A iniciativa, batizada de “Parceiros pelo Multilateralismo” (P4M), foi anunciada em um manifesto conjunto publicado no jornal britânico Financial Times, neste domingo (20).
O documento, assinado pelas mais altas lideranças de cada país, incluindo o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, propõe uma estrutura flexível para formar coalizões e impulsionar reformas nas instituições globais, buscando conter a crescente polarização e a fragmentação mundial. A iniciativa surge em um momento de tensões geopolíticas e aumento de conflitos armados.
O lançamento da P4M ocorre em um cenário de crise para a ONU, com restrições financeiras e dificuldades em resolver conflitos. A iniciativa busca ser um contraponto ao discurso de “zonas de influência”, especialmente relevante com a iminente fala do presidente dos EUA, Donald Trump, na Assembleia Geral.
Um manifesto contra a fragmentação global
O manifesto destaca a preocupante escalada de conflitos armados entre Estados, atingindo 65 registros em 2025, o maior número desde 1946. Paralelamente, os gastos militares globais bateram um recorde histórico, chegando a US$ 2,9 trilhões. Essa conjuntura pressiona o direito internacional e resgata a linguagem de “esferas de influência” e “política de poder”.
As relações econômicas também têm sido cada vez mais utilizadas como ferramentas de pressão e coerção, enquanto a desigualdade social aumenta tanto dentro quanto entre as nações. O documento enfatiza que nenhum país, por mais poderoso que seja, consegue enfrentar sozinho desafios como inteligência artificial, mudanças climáticas, pandemias e choques financeiros.
“Parceiros pelo Multilateralismo”: uma nova estrutura de cooperação
A iniciativa “Parceiros pelo Multilateralismo” (P4M) visa criar uma estrutura flexível e aberta a países com diferentes tradições políticas. O objetivo é atuar além das divergências, formar coalizões para reformas e transformar princípios compartilhados em ações concretas. A P4M não busca criar um novo bloco, mas sim fortalecer a cooperação existente e apoiar reformas na ONU.
A proposta é tornar as instituições globais mais representativas, legítimas, eficazes e confiáveis. A P4M pretende fortalecer a cooperação entre organizações regionais, contribuir para a paz e segurança, aprimorar a governança econômica global e desenvolver abordagens conjuntas para desafios contemporâneos. A iniciativa se baseia em princípios inegociáveis como a igualdade soberana, a integridade territorial e o respeito ao direito internacional.
O contexto da Assembleia Geral da ONU
O lançamento da P4M coincide com a abertura do debate geral da Assembleia Geral da ONU, onde o presidente Lula fará o discurso de abertura, tradicionalmente defendendo o multilateralismo e a cooperação internacional. Sua fala será seguida pela do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, em um cenário que evidenciará o contraste entre a defesa da ação coletiva e o discurso de “zonas de influência”.
O manifesto conclui com um apelo direto aos líderes mundiais, apresentando a escolha entre renovar a cooperação multilateral ou ceder à fragmentação e à polarização. A iniciativa convida o mundo a optar pelo direito e pela responsabilidade compartilhada, em vez de aceitar a divisão e o enfraquecimento do sistema internacional.
Um chamado à ação coletiva
As lideranças signatárias acreditam que a comunidade internacional precisa redescobrir o potencial da ação coletiva. Argumentam que a competição não precisa se transformar em confronto, e que a soberania é fortalecida quando os países trabalham juntos para enfrentar desafios comuns. A promoção dos interesses nacionais, em muitos casos, passa pela ação coletiva diante de desafios compartilhados.
A verdadeira escolha, segundo o manifesto, não é entre preservar a ordem internacional pós-Segunda Guerra Mundial ou abandoná-la, mas sim entre renovar a cooperação multilateral em um mundo em transformação ou permitir que a fragmentação, a polarização e a política de poder definam a próxima era. A iniciativa P4M é um convite para que líderes de todo o mundo se juntem a essa visão de cooperação em vez de fragmentação.
