Partido da Esquerda assume a liderança em Berlim com promessa de nacionalizar moradias e abalar a política alemã
Em um resultado eleitoral que pode redefinir o cenário político da capital alemã, o Partido da Esquerda emergiu como a força vitoriosa nas eleições estaduais de Berlim. A candidata principal, Elif Eralp, centrou sua campanha na crise habitacional e prometeu a nacionalização de associações de moradia privada, um movimento audacioso que visa combater a especulação imobiliária.
A vitória representa uma derrota significativa para a coalizão governista do chanceler Friedrich Merz, que vê seu partido conservador (CDU) ser superado. O Partido da Esquerda, originário do antigo partido comunista da Alemanha Oriental, praticamente dobrou sua pontuação anterior, sinalizando uma mudança no eleitorado berlinense.
Este desfecho eleitoral, conforme divulgado pelas agências de notícias, coloca Eralp na iminência de se tornar a primeira prefeita de Berlim pela sigla. A consolidação do resultado, com a contagem de votos ainda em andamento, já indicava a perda da prefeitura para os democratas-cristãos. “A partir de hoje, vamos mudar Berlim juntos”, declarou Eralp aos seus apoiadores em festa.
O Partido da Esquerda e a Habitação como Prioridade
O Partido da Esquerda alcançou 25,3% dos votos, superando a CDU com 19% e a extrema-direita Alternativa para a Alemanha (AfD) com 16%. Os social-democratas (SPD), de centro-esquerda, obtiveram 12,1%. A promessa central de campanha de Elif Eralp, filha de pais turcos de esquerda, foi a nacionalização das associações de habitação privada, que detêm uma parcela considerável dos imóveis na cidade.
Eralp enfatizou que a crise de aluguéis é “o maior problema social” da capital e declarou a intenção de “expulsar a especulação de Berlim”. Essa proposta alinha-se a um referendo de 2021, onde 58% dos eleitores apoiaram a nacionalização. A medida prevê a transferência de cerca de 220 mil unidades habitacionais para a propriedade estatal.
Desafios e Custos da Nacionalização
A viabilidade e o custo da nacionalização das moradias são pontos de debate. O secretário-geral do SPD, Tim Kluessendorf, estimou que a operação custaria aproximadamente 20 bilhões de euros. Uma pesquisa da Infratest Dimap também indicou que apenas 37% dos entrevistados são favoráveis à medida, levantando questionamentos sobre o apoio público.
Ascensão da Extrema Direita e Rejeição aos Partidos Tradicionais
A eleição em Berlim ocorreu no mesmo dia em que a AfD conquistou o primeiro lugar nas eleições estaduais em Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental, reforçando seu avanço no leste da Alemanha. O partido de extrema-direita também registrou seu melhor desempenho histórico na capital. Contudo, o Partido da Esquerda também se beneficiou de uma tendência geral de rejeição aos partidos tradicionais de centro-esquerda e centro-direita.
A economia alemã e a incerteza sobre o futuro foram fatores que influenciaram as eleições, com as despesas de aluguel se destacando como tema central. Tanto o SPD quanto o Partido Verde demonstraram abertura para formar uma coalizão com o Partido da Esquerda, mas o líder dos Verdes, Felix Banaszak, levantou preocupações sobre acusações de antissemitismo em setores do Partido da Esquerda, exigindo um compromisso claro contra todas as formas de discriminação para que a parceria seja viável.
O Partido da Esquerda nega o antissemitismo sistemático e afirma ser contra todas as formas de “hostilidade direcionada a grupos”, incluindo antissemitismo, racismo e sexismo. O partido ainda não respondeu formalmente à exigência dos Verdes.
