A China Conquista Corações e Mentes: “Chinamaxxing” Revela o Crescente Soft Power Chinês nos EUA
Uma nova onda cultural está varrendo os Estados Unidos, e ela tem um sotaque inesperado: o chinês. Jovens americanos estão adotando hábitos como beber água quente, jogar mahjong e vestir roupas com botões de nó, um fenômeno batizado de “chinamaxxing”.
Essa tendência, que viralizou em plataformas como TikTok e RedNote (Xiaohongshu), sinaliza uma mudança no panorama global do soft power, onde a China avança com uma estratégia multifacetada que combina cultura, tecnologia e influência.
A disputa pela atenção global, antes dominada pelo ocidente, agora vê a China emergir como uma força cultural pujante, desafiando décadas de domínio americano. Conforme informações divulgadas pela consultoria Brand Finance e pesquisas do Gallup, a influência cultural chinesa está em ascensão, aproximando-se do patamar dos Estados Unidos. Essa matéria explora as raízes e as manifestações desse fenômeno.
A Guerra Fria da Cultura: Soft Power em Nova Dimensão
O conceito de “chinamaxxing” é mais do que uma moda passageira, representando um símbolo da crescente disputa cultural entre China e Estados Unidos. A China tem investido significativamente em sua estratégia de soft power, buscando influenciar comportamentos e imaginários através de sua cultura vibrante.
Essa estratégia se manifesta em diversas frentes, desde produções cinematográficas e séries até jogos eletrônicos e influenciadores digitais. A consultoria Brand Finance posicionou a China como a segunda potência cultural global em 2026, com 73,5 pontos, muito próxima dos Estados Unidos (74,9 pontos).
Pesquisas recentes indicam uma mudança na percepção global, com a “aprovação global” da China superando a dos EUA em abril. Um levantamento do Chicago Council on Global Affairs também mostrou um aumento no apoio à cooperação com a China entre os americanos.
Da “Hollywood do Oriente” às Redes Sociais: Duas Faces da Influência Chinesa
O soft power chinês opera em duas frentes distintas, mas complementares. De um lado, há a produção cultural dirigida pelo Estado, com filmes patrióticos e narrativas oficiais cuidadosamente calibradas. Exemplos notórios incluem a saga “Lobo Guerreiro”, que retrata heróis chineses em conflitos globais, muitas vezes contra vilões americanos.
Do outro lado, emerge uma onda espontânea e orgânica, impulsionada por jovens, designers e jogadores que descobrem a China através de plataformas digitais como TikTok e RedNote. Essa vertente “de baixo para cima” tem um apelo genuíno, conectando públicos internacionais com a cultura chinesa de forma mais autêntica.
Hengdian, conhecida como a “Hollywood do Oriente”, é um epicentro dessa produção industrial de conteúdo. O complexo abriga estúdios que geram filmes, animações e séries que alcançam alcance global, muitas vezes transmitindo mensagens alinhadas com as prioridades diplomáticas de Pequim.
Cultura Pop Chinesa: De Animações a Games Que Conquistam o Mundo
A animação chinesa tem demonstrado um poder de atração crescente. “Ne Zha 2”, por exemplo, quebrou recordes de bilheteria, superando produções de Hollywood e se tornando uma das maiores bilheterias da história do cinema. Filmes como este frequentemente associam vilões a símbolos americanos, refletindo a dinâmica geopolítica.
O setor de videogames chinês também se destaca. Jogos como “Black Myth: Wukong” alcançaram um sucesso global inédito para a China, vendendo milhões de cópias e mostrando um interesse crescente pela narrativa e estilo artístico chinês. “Where Winds Meet” e “Delta Force” são outros exemplos de títulos que ganharam popularidade internacional.
A moda chinesa também entra em cena, com marcas como Adidas lançando peças inspiradas em elementos tradicionais, como o “botão centopeia”. Embora algumas interpretações ainda sejam consideradas superficiais, estilistas chineses como Robert Wun e Guo Pei ganham espaço nas semanas de moda globais, apresentando expressões culturais mais contemporâneas.
O Futuro da Influência: Um Diálogo Cultural em Construção
No Brasil, o soft power chinês desembarca através de filmes, espetáculos e intercâmbios culturais. A exibição de filmes como “Terra à Deriva 2” e a turnê da Companhia Nacional de Ópera de Pequim são exemplos dessa aproximação.
Atores chineses, como Zhu Lingyu, intérprete de personagens icônicos como Wukong e Ne Zha, ressaltam a importância dessas figuras como símbolos culturais contemporâneos que ajudam a disseminar a cultura chinesa pelo mundo. Ele compara o momento atual ao da ascensão da cultura coreana, prevendo um crescimento gradual e consistente.
A influência cultural chinesa, segundo o analista Zichen Wang, depende não apenas da escala e das mensagens estatais, mas também do espaço para que indivíduos, criadores e empresas se expressem e se conectem com públicos externos. Essa interação é fundamental para fortalecer o alcance e a profundidade do soft power chinês no cenário global.
