Crédito fácil e juro alto deixam metade do Brasil inadimplente
A história de Mona Lisa Santana, que acumulou R$ 1,4 milhão em dívidas após obter 44 cartões de crédito sem comprovação de renda, ilustra a grave crise de endividamento que assola o país. Ela usava um cartão para pagar o outro, caindo em um ciclo vicioso de juros sobre juros.
Este cenário alarmante é confirmado pelos dados do Mapa da Inadimplência da Serasa, que apontam que, em agosto, 83,9 milhões de brasileiros, mais da metade da população adulta, possuíam dívidas atrasadas há mais de 90 dias. O problema é tema central da série especial “Brasil Endividado” do UOL.
A facilidade de acesso ao crédito, especialmente durante os anos da pandemia, aliada a um cenário de juros em alta, criou um ambiente propício para o endividamento massivo. Especialistas apontam que a questão é complexa e envolve diversos fatores, indo além da simples oferta de crédito, conforme divulgado pelo UOL.
O Cartão de Crédito como Vilão e a Alta da Selic
O cartão de crédito lidera o ranking das dívidas em atraso, representando 27,2% do total, segundo dados da Serasa. Contas básicas como luz e água, e faturas de financeiras e serviços, vêm em seguida. Flávio Ataliba, pesquisador do FGV Ibre, destaca que a pandemia levou muitos a se endividarem ao perderem renda, e os juros altos agravaram drasticamente a situação.
A taxa Selic, que estava em 2% ao ano em 2020, subiu para cerca de 15%, e atualmente se encontra em 13,75%. Empréstimos pessoais podem ter taxas de juros que ultrapassam os três dígitos anuais, tornando o pagamento das dívidas um desafio colossal.
A Lógica da “Ascensão Social pelo Endividamento”
Edgard Senaha, livreiro em São Paulo, relata dever cerca de R$ 7 mil no cartão de crédito. Sua situação piorou com ganhos flutuantes e a perda do emprego da esposa, que era a principal fonte de renda. Ele se viu obrigado a fazer múltiplos empréstimos para cobrir as faturas, um ciclo que ele decidiu interromper.
Maria Paula Bertran, professora da USP, explica que uma lógica de “ascensão social pelo endividamento” vigorou no Brasil a partir dos anos 2000. Classes mais baixas acessaram o consumo via crédito, gerando lucros para bancos com juros, até que o modelo saturou.
Boom de Crédito e Bancarização com Consequências
O acesso ao crédito para pessoas físicas cresceu 90% entre março de 2011 e julho de 2023, segundo dados do Banco Central. A chegada de fintechs, a digitalização bancária e programas governamentais facilitaram a concessão de crédito. Em 2018, fintechs ganharam autonomia para conceder crédito diretamente.
A expansão da bancarização, com programas sociais sendo pagos via cartão, também contribuiu para o aumento do endividamento. A falta de educação financeira fez com que muitos entrassem no sistema sem a devida compreensão sobre o pagamento futuro de suas dívidas, segundo Katherine Hennings, pesquisadora associada do FGV IBRE.
Renda Drenada por Juros e Renegociações
Mesmo com o desemprego em baixa e ganhos reais de massa salarial, o comprometimento de renda das famílias com dívidas permanece alto. Hennings explica que os rendimentos estão sendo drenados para o pagamento de juros e amortizações de dívidas antigas. Modalidades como o crédito consignado, embora com juros menores, comprometem a renda disponível a longo prazo.
Programas como o Desenrola 2.0 buscaram renegociar dívidas, mas especialistas como Ataliba argumentam que tais programas tratam o sintoma, não a causa estrutural do problema. A Febraban afirma que os bancos adotam políticas para prevenir o superendividamento e oferecem mutirões de repactuação.
