Crise Agro: Calote de R$ 48 Bilhões Transforma Bancos em ‘Fazendeiros’ e Preocupa Produtores

BRASIL

Crise no Agro: Calote de R$ 48 Bilhões Transforma Bancos em ‘Fazendeiros’ e Preocupa Produtores

A Fazenda Santo Antônio, no Tocantins, é um exemplo emblemático da nova realidade do agronegócio brasileiro. Após o pecuarista não conseguir honrar seus empréstimos, a propriedade de R$ 9,6 milhões agora pertence a um banco, que a gerenciará por meio de um fundo de investimentos. Esta não é uma história isolada, mas sim um reflexo da pior crise de endividamento do setor em mais de duas décadas.

Em junho, a inadimplência no agronegócio atingiu a marca impressionante de R$ 48 bilhões, um salto de 2.300% em relação a cinco anos atrás. A taxa de calote subiu de 0,54% para 5,63%, uma mudança drástica para esta modalidade de crédito. O cenário é ainda mais preocupante quando se considera que o montante com alto risco de não ser pago ultrapassa os R$ 72 bilhões, segundo dados do Banco Central.

Essa crise sem precedentes está afetando diretamente os resultados das instituições financeiras, com destaque para o Banco do Brasil, que viu seu lucro cair 45% em 2025, atribuindo o mau desempenho à inadimplência rural. Os bancos, em resposta, estão ajustando contratos e utilizando a alienação fiduciária, um mecanismo que permite a retomada de terras em caso de calote sem a necessidade de aval judicial. As informações são do UOL.

Bancos Assumem o Controle de Terras e Mudam Estratégias de Crédito

A alienação fiduciária, antes mais comum no crédito imobiliário, tem sido cada vez mais aplicada em financiamentos rurais. Com essa modalidade, o banco assume a propriedade temporariamente até a quitação da dívida. Em caso de inadimplência, a terra passa a pertencer definitivamente à instituição. Essa mudança, impulsionada por uma alteração legal em 2021 que permitiu a recuperação judicial para produtores rurais pessoa física, visa proteger os credores.

O impacto é visível: os bancos estão se tornando grandes proprietários de terras. O Banco do Brasil, por exemplo, iniciou a retomada definitiva de mais de 130 imóveis rurais. Outras instituições estão estruturando fundos, como os Fiagros, para gerenciar essas propriedades. O Santander, por exemplo, possui imóveis rurais avaliados em R$ 97 milhões em um de seus fundos.

Apesar da situação, os bancos afirmam buscar soluções negociadas. O Banco do Brasil declara “não haver nenhum interesse em executar garantias” e priorizar acordos. O Bradesco foca em renegociações para regularização, enquanto o Santander reitera seu compromisso com o desenvolvimento do agronegócio. As informações foram divulgadas pelo UOL.

A “Farra do Crédito” e a Virada do Jogo no Agronegócio

A crise atual tem suas raízes em um período de bonança e crédito farto. Entre 2020 e 2023, a carteira de crédito rural cresceu 83%, impulsionada pela alta nos preços das commodities e baixas taxas de juros. Muitos produtores aproveitaram essa facilidade para expandir suas operações, mas não previram a reviravolta no mercado.

A partir de meados de 2023, os preços das commodities agrícolas, especialmente a soja, entraram em declínio. Simultaneamente, os custos de produção, como os de fertilizantes, aumentaram devido a fatores geopolíticos. Eventos climáticos extremos também impactaram a produção. Essa combinação criou uma “tempestade perfeita”, como descreveu a ex-ministra Tereza Cristina.

O aumento vertiginoso da taxa Selic, que chegou a 15% em 2025, elevou os juros dos créditos rurais a patamares de até 23% ao ano, tornando o pagamento das dívidas contraídas em tempos de juros baixos um desafio colossal. Essa dificuldade em honrar os compromissos financeiros é o cerne da crise de inadimplência.

Renegociações e a Busca por Soluções Políticas

A inadimplência no agronegócio, historicamente baixa, disparou, ultrapassando a média nacional. Para mitigar os efeitos, os bancos têm ampliado prazos e renegociado dívidas, com o Banco do Brasil renegociando R$ 37 bilhões no último ano. Contudo, analistas apontam falhas na análise de risco por parte dos credores.

A Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA) busca auxílio do governo federal, propondo juros subsidiados para renegociação de dívidas. A Medida Provisória 1376 prevê renegociação de até R$ 8 milhões com juros de até 12% ao ano, com o Tesouro cobrindo a diferença. No entanto, o setor alega que as condições da MP não estão facilitando o acesso ao crédito.

O principal obstáculo é a exigência de laudos técnicos que comprovem perdas de produção de 30% a 40%. O governo teme o “risco moral”, ou seja, que produtores com capacidade de pagamento deixem de honrar suas dívidas na expectativa de subsídios. A situação afeta toda a cadeia produtiva, com queda nas vendas de máquinas agrícolas e cancelamento de eventos, como a feira agropecuária de Peixe, no Tocantins, evidenciando a gravidade da crise.

Efeito Cascata no Setor e a Incerteza Climática

O endividamento no campo gera um efeito cascata em toda a economia. A venda de colheitadeiras, por exemplo, caiu 85% desde 2022, e a de tratores recuou 42%, segundo dados da Anfavea. Em cidades altamente dependentes do agronegócio, como Peixe, no Tocantins, o cenário é desolador, com lojas fechando e a feira agropecuária local sendo cancelada por falta de condições de negócios.

Produtores relatam dificuldades em obter crédito para a próxima safra devido às exigências bancárias e à falta de recursos. A perspectiva de uma queda na área plantada acende o alerta para um possível aumento no preço dos alimentos. A situação é agravada pela possibilidade de um forte El Niño, que pode comprometer ainda mais a produção em um cenário de altos custos.

A cautela dos bancos na concessão de crédito, intensificada pelos riscos climáticos e pela falta de seguro por parte de muitos produtores, pode agravar ainda mais a crise. O agronegócio brasileiro enfrenta um período de incertezas, onde a recuperação dependerá de uma combinação de políticas eficazes, renegociação de dívidas e condições climáticas favoráveis.

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