EUA e Brasil em impasse diplomático: cooperação contra o crime organizado ameaçada por retaliações e desconfiança
Uma crise diplomática entre os Estados Unidos e o Brasil está severamente prejudicando a cooperação bilateral no combate ao crime organizado. A informação é de reportagem publicada pelo jornal americano “The New York Times”, que detalha como retenções de vistos e trocas de acusações criaram um clima de desconfiança.
Autoridades americanas e brasileiras, que pediram para não ser identificadas, revelaram ao jornal que o Departamento de Estado dos EUA bloqueou os vistos de dois agentes da Polícia Federal brasileira destinados a postos em Miami e Nova York.
Em resposta, o governo brasileiro retaliou, negando o visto a um oficial americano que seria enviado ao Brasil. Essa troca de medidas levanta sérias preocupações sobre o futuro da colaboração entre as duas nações em áreas críticas de segurança, conforme aponta o “The New York Times”.
Retaliações e escalada de tensões: um ciclo vicioso
A atual escalada de retaliações teve início em abril, quando o governo Trump expulsou o delegado brasileiro Marcelo Ivo de Carvalho dos Estados Unidos. O motivo alegado foi a participação do delegado em uma tentativa de golpe de Estado em 8 de janeiro de 2023, o que os EUA classificaram como uma “caça às bruxas política”.
Como resposta imediata à expulsão de Carvalho, o Brasil revogou as credenciais de um agente de segurança americano em Brasília. Essa sequência de eventos demonstra um aprofundamento das divergências e um ciclo de desconfiança mútua, segundo o jornal americano.
Interferência política e propostas ignoradas prejudicam combate ao crime
O “The New York Times” relata que as relações bilaterais foram estremecidas por tentativas de interferência em assuntos internos do Brasil. A reportagem sugere que o governo americano demonstrou uma aparente disposição em apoiar Flávio Bolsonaro, candidato de direita e adversário do presidente Luiz Inácio Lula da Silva nas eleições presidenciais brasileiras.
O jornal destaca que o presidente Lula apresentou pessoalmente a Donald Trump, em maio, uma proposta para o combate conjunto a facções criminosas, com foco no bloqueio de armas. No entanto, o governo americano nunca respondeu a esse plano. Essa falta de resposta e a classificação de facções brasileiras como organizações terroristas por Washington, após pressão de aliados de Bolsonaro, acabaram por prejudicar investigações sigilosas da Polícia Federal.
Impacto na segurança regional e futuras iniciativas de cooperação
Apesar de manterem cooperação técnica em alguns pontos, como o sistema de alertas cruzados para contêineres suspeitos, a falta de alinhamento político no alto escalão ameaça os esforços contínuos contra o crime organizado. O Brasil é uma rota estratégica para o tráfico de cocaína para Europa e África, enquanto facções brasileiras utilizam o sistema financeiro dos EUA para lavar dinheiro e adquirem armas ilegalmente.
Recentemente, a Polícia Federal brasileira prendeu dois indivíduos com peças de armamentos provenientes da Flórida, evidenciando a persistência do problema. Além disso, o Brasil tem sido excluído de novas iniciativas regionais de segurança promovidas pelos EUA, como a aliança “Escudo das Américas” e encontros na ONU, o que, segundo o ex-embaixador americano Jimmy Story, gera um afastamento contraproducente entre os dois países.
