Direita “Contracultural”: Como Astrologia e Teorias da Conspiração Viraram Símbolos da Nova “Rebelião” nos EUA e Brasil

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A Direita “Contracultural”: Como Astrologia e Teorias da Conspiração Viraram Símbolos da Nova “Rebelião” nos EUA e Brasil

A dinâmica política contemporânea tem visto a direita assumir um papel inusitado: o de “contracultura”. Nos Estados Unidos e no Brasil, essa transformação se manifesta na adoção de discursos e práticas que, historicamente, seriam associados a movimentos marginais ou rebeldes. Essa estratégia de “frente ampla” une conservadores, conspiracionistas e diversos grupos dissidentes, ecoando táticas de movimentos históricos como a Reforma Protestante.

A ascensão da astrologia e de teorias da conspiração como elementos centrais no discurso de direita é um fenômeno complexo. Ao se posicionar como a voz dos “desprivilegiados” e “desprezados” pelas elites intelectuais e midiáticas, a direita atrai um espectro amplo de indivíduos que se sentem marginalizados.

Essa nova “rebelião” se assemelha a movimentos do passado, onde a busca por um senso de pertencimento e a rejeição ao status quo uniram pessoas com visões de mundo distintas. A fonte original destaca como a Reforma Protestante, ao se opor à Igreja Católica como poder estabelecido, precisou de uma “rede ampla” de aliados, incluindo aqueles com crenças menos ortodoxas, como a astrologia. Essa estratégia de aglutinação é a base para entendermos a atual “frente ampla” da direita. Conforme informação divulgada pelo historiador espanhol autor do artigo, a esquerda é hoje vista como a ideologia governante, enquanto a direita se posiciona como desafiante.

A Astrologia como Ferramenta de Reforma e Rebelião

A relação entre a Reforma Protestante e a astrologia é um ponto crucial para entender a dinâmica atual. Martinho Lutero e outros reformadores, como Melanchthon, viram na astrologia, apesar de ceticismos pontuais, um aliado na desconstrução de dogmas católicos. Melanchthon, por exemplo, via a astrologia como ligada à recuperação do Evangelho puro e à organização da vida cotidiana, com base em Gênesis 1:14. Robin B. Barnes, em seu ensaio “Reforming Time”, explica que os horóscopos e prognósticos astrológicos eram disseminados para o “homem comum”, tornando-se um canal de divulgação evangélica.

Esses astrólogos e pregadores evangélicos compartilhavam uma oposição consciente aos ciclos de festas e jejuns herdados da Idade Média. A ideia era que a reverência a Deus deveria ser constante, sem distinção entre tempos sagrados e profanos. A “Prognosticatio in Latino” de Johannes Lichtenberger, um best-seller astrológico da época, chegou a prever o surgimento de um “Monge Profeta” que derrubaria o papado, figura interpretada por muitos como Lutero.

A Lógica da “Frente Ampla” da Direita na Contemporaneidade

A atual “contracultura” da direita se explica pela mesma lógica de “frente ampla” observada nos protestantes. Com a percepção de que a esquerda domina a academia, as elites globais e o mundo corporativo, a direita se tornou o espaço para “dissidentes” e teorias alternativas. Isso inclui desde pessoas que acreditam em complexas teorias de conspiração até aqueles obcecados por “chemtrails” ou com explicações elaboradas para eventos políticos.

Essa aglutinação se manifesta na escolha de figuras públicas e plataformas de mídia. Nos EUA, a direita abraça personalidades como Joe Rogan e os convidados de Tucker Carlson, além de figuras controversas em redes sociais. No Brasil, o bolsonarismo é o exemplo máximo dessa coalizão ampla e barulhenta, unindo agronegócio, militares, ativistas armamentistas, neopentecostais apocalípticos, católicos conservadores e adeptos de teorias da conspiração.

A crença compartilhada é de que tribunais, universidades, imprensa tradicional e o bloco progressista se uniram contra eles, vendo-os como “deploráveis”. Assim como os protestantes buscavam sinais divinos nos céus, alguns na direita contemporânea procuram por portentos apocalípticos, vendo em eventos como o 8 de janeiro de 2023 a explosão dessa “frente ampla” rebelde e difícil de controlar.

Lutero e a Escolha pela Ordem em Meio à Rebelião

A história de Martinho Lutero oferece um paralelo importante sobre como movimentos rebeldes lidam com seus próprios radicais. Em 1524, a Guerra dos Camponeses na Alemanha, inspirada pelas ideias protestantes, questionou a injustiça feudal. Lutero, no entanto, ao invés de apoiar os camponeses, publicou “Contra as hordas assassinas e ladras de camponeses”, alinhando-se à nobreza e pedindo a destruição dos rebeldes.

Essa decisão, embora vista como fria, foi politicamente astuta. Lutero distinguiu dois reinos, o de Deus e o do mundo, argumentando que os plebeus deviam obediência aos senhores. Essa postura garantiu o apoio das elites europeias ao protestantismo, permitindo que Lutero morresse em paz, enquanto outros líderes radicais foram executados. A lição para os tempos atuais é a necessidade de influentes figuras no bloco desafiante policiá-lo para que os “malucos”, mesmo bem-intencionados, não assumam o controle.

A Esquerda como Elite Dominante e a Direita como Desafiante

A dinâmica atual, onde a esquerda é a ideologia governante e a direita a desafiante, difere de períodos anteriores. Historicamente, as elites dominantes atraíam os mais inteligentes e ambiciosos, mas também os hipócritas em busca de status. Isso explica como impérios liderados por “caras inteligentes” podem cair, dando lugar a alternativas “pouco ideais”, especialmente quando a elite se torna corrupta, como simbolizado por figuras como Jeffrey Epstein.

A esquerda é vista pela direita como corrupta, mundana e cosmopolita, armada de conhecimento que nem sempre é acessível ao “homem comum”. Termos como “riscos biológicos”, “direito de escolha” e “mudança climática” são percebidos como ferramentas de controle intelectual. Em contrapartida, a direita, com sua “frente ampla”, busca defender uma ética e moral universais, em contraste com o que percebem como a fluidez ideológica da esquerda, especialmente em questões de identidade e representação.

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