Eleições no Peru e Colômbia: O ‘Círculo de Fogo’ Pró-Trump Ameaça Isolar o Brasil na América do Sul?
Neste mês de junho, o Peru e a Colômbia estão em foco com eleições presidenciais que podem definir o rumo político da América do Sul. As decisões desses países vizinhos ao Brasil podem consolidar um “círculo de fogo” alinhado a Donald Trump na região, gerando apreensão sobre o isolamento do Brasil e o futuro da política externa do país.
Analistas apontam que um cenário com governos de direita em toda a América do Sul, influenciados pela política de Trump, representaria um desafio significativo para o Brasil. A possibilidade de um alinhamento regional com os Estados Unidos, sob uma possível nova liderança de Trump, levanta questões sobre a autonomia e a influência brasileira no continente.
Ainda que uma vitória da esquerda no Peru e na Colômbia pudesse trazer um alívio ao governo Lula, mantendo aliados ideológicos na região, o cenário geral já é considerado complexo. A dinâmica regional, impulsionada por fatores externos e internos, exige atenção especial às consequências para o Brasil e suas relações internacionais. Conforme análise de Feliciano de Sá Guimarães, professor do Instituto de Relações Internacionais da USP, “Os americanos estão fazendo um círculo de fogo em torno do Brasil, e isso já está pressionando o país”.
Peru: Instabilidade Política e Disputa pela Direita ou Esquerda
No Peru, a eleição deste domingo (7/6) marca mais um capítulo da instabilidade política que assola o país desde a destituição e prisão do ex-presidente Pedro Castillo em 2022. A disputa se acirra entre a direitista Keiko Fujimori, que busca a presidência pela quarta vez, e Roberto Sánchez, representante da esquerda que ecoa o estilo de Castillo.
A sucessão de presidentes no Peru, desde Dina Boluarte até o atual José María Balcázar Zelada, reflete um período de incerteza. A possibilidade de Fujimori assumir o cargo pode reforçar a tendência de direita na região, enquanto Sánchez representa a continuidade de um projeto de esquerda em meio a turbulências.
Colômbia: O Fim da Era Petro e a Ascensão da Direita Radical
Em 21 de junho, a Colômbia decidirá se dará continuidade ao projeto político de Gustavo Petro, o primeiro presidente de esquerda do país. Com o impedimento de reeleição, Petro apoia o senador Ivan Cepeda, mas as pesquisas indicam que o candidato da direita radical, Abelardo de la Espriella, surge como favorito.
De la Espriella, inspirado por figuras como Javier Milei e Nayib Bukele, representa uma nova onda de direita na América do Sul, caracterizada por discursos fortes e uma base eleitoral engajada, muitas vezes impulsionada pelas redes sociais. Sua ascensão pode ser um indicativo do crescente radicalismo político no continente.
O Efeito Dominó: Uma Nova “Onda Rosa” de Direita?
As eleições no Peru e na Colômbia ocorrem em um contexto de giro à direita na América do Sul. Vitórias recentes na Argentina (Javier Milei), Equador (Daniel Noboa) e Bolívia (Rodrigo Paz) indicam uma mudança no mapa político, em contraste com a chamada “onda rosa” de governos de esquerda do início dos anos 2000.
Analistas como Carolina Silva Pedroso, pesquisadora da Unesp, observam que “Em termos históricos, é a esquerda quem tradicionalmente se organiza de forma internacional, mas com Trump foi se formando uma integração clara entre a direita na região”. Essa integração, consolidada ao longo de quase uma década, fortalece a influência mútua entre os governos de direita.
A “praga da incumbência”, termo cunhado por Feliciano de Sá Guimarães, explica parte dessa volatilidade, pois governantes têm enfrentado dificuldades crescentes para serem reeleitos devido ao descompasso entre as expectativas da população e a capacidade dos Estados em entregar resultados. Isso tem levado a rápidas mudanças de poder no continente.
Brasil Sob Pressão: O Papel de Trump e o Isolamento Geopolítico
O fator Trump é considerado crucial para entender essa nova dinâmica. Sua influência se estende pela região, e a direita brasileira, representada por figuras como Flávio Bolsonaro, busca capitalizar esse alinhamento. A proximidade de Bolsonaro com Trump, evidenciada em encontros recentes, sugere uma possível estratégia de integração regional.
No entanto, o pesquisador Guimarães alerta que o objetivo americano é reduzir a influência chinesa na América do Sul, e ter presidentes aliados é a forma mais barata de atingir esse fim. Ele ressalta que “Flávio se engana muito se acredita que terá no presidente Trump um aliado de primeira hora”, pois questões estruturais do Brasil, como a relação com a China, independem do ocupante da Casa Branca.
Para o governo Lula, um cenário de isolamento ideológico seria prejudicial. A capacidade do Brasil de resistir à política de Trump para o continente seria enfraquecida com múltiplos adversários regionais. “Uma coisa é você ter um adversário na Bolívia ou na Argentina. Outra coisa é você ter dez adversários. O fator agora são os Estados Unidos. E o presidente Trump procura isolar o Brasil”, afirma Guimarães.
Além das disputas ideológicas, questões transnacionais como o crime organizado e o narcotráfico na Amazônia exigem afinidade entre governos. A eleição de governos alinhados a Trump no Peru e na Colômbia pode complicar o enfrentamento desses problemas, impactando diretamente a segurança e a política externa do Brasil em um cenário geopolítico cada vez mais complexo e polarizado.
