Escândalo no BC: Banqueiro Daniel Vorcaro usava ‘espiões’ no Banco Central para salvar o Master
Novas revelações chocantes expõem como o banqueiro Daniel Vorcaro, proprietário do Banco Master, mantinha um esquema sofisticado de vazamento de informações sigilosas dentro do próprio Banco Central (BC). A operação, detalhada em mensagens inéditas obtidas pela Polícia Federal e divulgadas pelo UOL, revela um grupo secreto no WhatsApp intitulado “Master”, onde Vorcaro se comunicava diretamente com dois servidores de alta patente da instituição.
O objetivo principal do grupo era articular estratégias e obter informações privilegiadas para tentar reverter a iminente liquidação do Banco Master. As conversas indicam que os servidores, Belline Santana e Paulo Sérgio Neves de Souza, chefes do Departamento de Supervisão Bancária (Desup), agiam em conluio com Vorcaro, combinando táticas de pressão e trocando documentos confidenciais.
A investigação da Polícia Federal aponta que Santana e Neves de Souza, além de atenderem aos interesses de Vorcaro, também davam andamento a denúncias internas que serviram de base para a própria investigação sobre os desvios no banco. Ambos foram afastados em janeiro deste ano e são suspeitos de receberem vantagens financeiras para auxiliar o banqueiro em suas articulações.
A Rede de Informantes dentro do Banco Central
O grupo “Master” foi criado por Belline Santana em 2 de outubro de 2025, pouco mais de um mês antes de o Banco Central decretar a liquidação do Master. Santana justificou a criação do grupo como uma forma de “facilitar nossa interlocução” com Daniel Vorcaro. Nas semanas seguintes, o trio discutiu caminhos para evitar a falência do banco, com os servidores revisando ofícios, agendando reuniões e comentando sobre decisões internas da autarquia.
O relatório da Polícia Federal descreve que Santana e Neves de Souza “atuaram de forma recorrente na defesa e promoção de interesses privados de Daniel Bueno Vorcaro, extrapolando de maneira significativa, ao que tudo indica, os limites de suas atribuições funcionais”. Ambos teriam oferecido orientação técnica, revisado documentos e repassado informações internas sensíveis.
Vazamento de Informações e Pressão nas Autoridades
Em 30 de outubro de 2025, Vorcaro informou a um interlocutor desconhecido que obteve informações de “pessoas de dentro do Bacen que são meus amigos e ficaram preocupados” sobre a pressão máxima exercida pelas autoridades sobre o presidente do BC, Gabriel Galípolo, e outros diretores para que uma medida fosse tomada em relação ao Master. As mensagens mostram que, após essas conversas, houve novas chamadas de voz no grupo.
O relacionamento de Vorcaro com os servidores era de longa data. Com Neves de Souza, a comunicação remonta a 2019, e com Santana, a 2023. A PF cita dezenas de ocasiões em que os dois forneceram informações a Vorcaro, auxiliando-o no monitoramento das ações do Banco Central. Em fevereiro de 2025, por exemplo, Paulo Sérgio Neves de Souza alertou Vorcaro sobre uma movimentação atípica de R$ 488,8 milhões do Fundo Reag Growth 95, que havia “caído no filtro da área de monitoramento”.
Articulação para Salvar o Banco Master
As mensagens revelam uma intensa articulação para tentar salvar o Banco Master. Santana e Neves de Souza não apenas revisavam ofícios enviados ao BC, mas também trocavam informações sobre a crise de liquidez do banco e incentivavam Vorcaro a pressionar Ailton de Aquino, diretor de fiscalização do BC. Aquino, que não é investigado, relatou à PF vazamentos sistemáticos no caso Master.
Em novembro de 2025, Vorcaro buscou orientação sobre a cessão de carteiras de crédito ao BRB e sobre a possibilidade de o BC emitir uma carta ao BTG para viabilizar a venda de um ativo. Neves de Souza, inclusive, informou a Vorcaro sobre a posição do diretor Ailton Aquino em relação a esses pleitos, demonstrando o acesso direto a informações estratégicas.
Os Momentos Finais e a Condução da Investigação
Na manhã de 17 de novembro de 2025, um dia antes da liquidação e horas antes da operação da Polícia Federal, Neves de Souza enviou uma mensagem enigmática a Vorcaro: “Bom dia Daniel! Semana decisiva”. Vorcaro, antes de ser preso, ainda questionou se deveria ligar para Ailton, recebendo como resposta “Liga e insiste” de Neves de Souza e “Considero fundamental, nesse momento” de Santana.
Enquanto os servidores conversavam com Vorcaro, eles também davam andamento, dentro do Banco Central, a uma denúncia que seria encaminhada à PF e ao Ministério Público Federal. O “Relato Sucinto de Ocorrências”, produzido em 10 de novembro de 2025, detalhava indícios de crimes na gestão de fundos pelo Banco Master e pela Reag Investimentos. O documento, que passou pela aprovação de Santana e Neves de Souza, apontava para um esquema de superfaturamento de ativos para desviar recursos do conglomerado.
Suspeitas de Vantagens Financeiras
A Polícia Federal suspeita que Belline Santana tenha sido beneficiado por meio de um contrato de fachada para um estudo sobre a inserção de jovens no mercado financeiro. Mensagens trocadas entre Vorcaro e seu cunhado, Fabiano Zettel, indicam que os repasses eram feitos para “Belline” ou “Bellini”. Leonardo Palhares, sócio da Varajo Consultores, seria o responsável por receber o dinheiro e repassá-lo ao servidor.
Já Paulo Sérgio Neves de Souza é investigado pela venda de um sítio por R$ 4,8 milhões a uma empresa do mesmo cunhado de Vorcaro e pelo custeio de uma viagem à Disney. A defesa de Neves de Souza alega que um depoimento ao STF “esclarece todas as afirmações equivocadas” citadas no relatório policial. Os advogados de Santana e Vorcaro não responderam às tentativas de contato do UOL.
