A explosão de negócios da família Trump abre caminho para presidentes dos EUA lucrarem com o cargo, gerando preocupações éticas e de conflito de interesses sem precedentes.
Por muitos anos, presidentes dos Estados Unidos zelaram para evitar a aparência de lucrar com o cargo. Figuras como Harry Truman e Richard Nixon demonstraram extrema cautela, enquanto George W. Bush vendeu todas as suas ações antes de assumir a presidência. O caminho trilhado pelo presidente Donald Trump, no entanto, tem sido notavelmente diferente.
Sob a liderança de seus filhos, Eric e Donald Jr., a Trump Organization expandiu seus negócios internacionalmente em um ritmo acelerado. As novas atividades incluem investimentos em criptomoedas e empresas militares, levantando sérias questões sobre potenciais conflitos de interesse e a influência de acordos internacionais nas decisões do governo.
Especialistas em ética governamental e historiadores alertam que a situação atual é mais preocupante do que nunca, com conflitos se acumulando e sendo considerados flagrantes e perigosos para a democracia. Conforme informações divulgadas pela Associated Press (AP), “Não acho que haja atualmente qualquer linha entre decisões políticas, cálculos políticos e o interesse da família Trump”, afirmou Julian Zelizer, historiador presidencial da Universidade de Princeton.
Expansão Internacional e Acordos Suspeitos
Durante o primeiro mandato de Trump, a Trump Organization não fechou acordos fora dos Estados Unidos. Contudo, pouco mais de um ano após o início de seu segundo mandato, já são oito novos negócios internacionais. A empresa alega seguir uma regra interna de não negociar diretamente com governos estrangeiros.
No entanto, em países onde o governo detém grande poder, a influência é difícil de ignorar. Projetos como um clube de golfe e casas de luxo com o nome Trump no Catar, construídos em parte por uma empresa estatal, e um resort no Vietnã, que exigiu a desapropriação de terras pelo governo, levantam bandeiras vermelhas.
Na Arábia Saudita, um resort “Trump Plaza” está em construção por uma empresa ligada à família real. Embora não seja possível afirmar com certeza se esses negócios influenciaram decisões americanas, os países envolvidos obtiveram benefícios, como acesso a tecnologia americana, redução de impostos e recebimento de aviões de combate. A Trump Organization, por sua vez, faturou dezenas de milhões de dólares em taxas.
Criptomoedas e Negócios com o Governo Americano
Os filhos de Trump, Eric e Donald Jr., também se envolveram em novas frentes de negócio, incluindo o mercado de criptomoedas. Uma reportagem do Wall Street Journal revelou que, pouco antes da posse de Trump, a família vendeu parte de uma empresa de criptomoedas, a World Liberty Financial, para uma companhia ligada ao governo dos Emirados Árabes Unidos por US$ 500 milhões.
Posteriormente, um fundo governamental dos Emirados Árabes Unidos investiu US$ 2 bilhões em uma moeda digital criada pela World Liberty. Essa operação permitiu que a empresa de Trump aplicasse o dinheiro em títulos públicos, gerando milhões em juros. Pouco tempo depois, o governo Trump reverteu uma regra da administração Biden, permitindo que os Emirados Árabes Unidos comprassem chips avançados dos EUA.
Outro empreendimento que gerou controvérsia foi o lançamento de moedas “meme” com o rosto de Trump, que renderam US$ 320 milhões em quatro meses, a maior parte para empresas ligadas a Trump, segundo a Chainalysis. Justin Sun, um bilionário de criptomoedas, gastou US$ 75 milhões em tais tokens antes da posse de Trump, e posteriormente teve um processo federal contra ele suspenso.
Investimentos em Empresas Militares e Déficit de Confiança
Eric e Donald Jr. também investiram em empresas que buscam contratos com o governo de seu pai. Uma delas é uma fabricante de drones armados que visa vender seus produtos tanto para o Pentágono quanto para países do Golfo. Empresas que receberam investimentos dos irmãos e que possuem acordos com o governo americano estão recebendo dezenas de milhões de dólares em fundos públicos.
A Casa Branca e a Trump Organization negam qualquer irregularidade. A porta-voz Anna Kelly afirmou que Trump age de “maneira ética” e que seus bens estão sob a administração dos filhos, sem envolvimento direto. A Trump Organization declarou estar “totalmente em conformidade com todas as leis aplicáveis de ética e conflitos de interesse”.
No entanto, a confiança pública parece estar diminuindo. Uma pesquisa do Pew Research Center em janeiro mostrou que apenas 42% dos eleitores republicanos confiam que Trump age de forma ética, uma queda em relação ao início de seu segundo mandato. A fortuna de Trump, estimada pela Forbes em US$ 6,3 bilhões, aumentou 60% desde antes de retornar à presidência, um crescimento notável diante das dificuldades passadas da Trump Organization.
Um Novo Padrão para a Presidência?
Timothy Naftali, historiador da Universidade Columbia, observa que “quaisquer restrições que existiam no primeiro mandato parecem ter desaparecido completamente”. A declaração de Trump em janeiro ao The New York Times, de que “ninguém se importava” com possíveis conflitos de interesse, sugere uma mudança na percepção sobre as regras que regem os presidentes.
O modelo de negócios de Trump, incluindo a venda de Bíblias, tênis e guitarras autografadas, e a criação de clubes privados com altas taxas de adesão, como o “Executive Branch” de Donald Jr., estabelece um novo precedente. A expansão agressiva e a aparente falta de preocupação com conflitos de interesse podem influenciar futuros presidentes, como alerta o historiador Julian Zelizer: “Ele mostrou politicamente que não há preço a pagar para ganhar dinheiro”.
