Houthis do Iêmen lançam mísseis contra Israel, intensificando temores de um conflito regional mais amplo.
Em um desenvolvimento alarmante para a estabilidade do Oriente Médio, os houthis, grupo armado iemenita aliado do Irã, reivindicaram neste sábado, 28 de março, o disparo de uma série de mísseis balísticos com o objetivo de atingir alvos militares israelenses sensíveis. Esta ação marca a primeira vez que o grupo ataca diretamente Israel desde o início do atual conflito na região.
A ofensiva houthi é apresentada como uma retaliação a supostos ataques contra o Irã, Líbano, Iraque e territórios palestinos. O grupo declarou que suas operações continuarão até o fim do que chamam de “agressão” em todas as frentes, sinalizando uma possível escalada e ampliação do conflito para novos teatros de operação.
As Forças de Defesa de Israel (IDF) confirmaram mais cedo no mesmo dia a interceptação de um míssil lançado do Iêmen. A participação direta dos houthis no conflito eleva a preocupação de especialistas sobre a possibilidade de uma expansão da guerra, abrindo uma nova frente na península Arábica e impactando rotas marítimas estratégicas.
Ameaças ao Estreito de Bab el-Mandeb e o impacto no comércio global
A intervenção dos houthis no conflito ganha especial relevância devido à sua influência sobre o Mar Vermelho. O grupo já ameaçou anteriormente bloquear e atacar o Estreito de Bab el-Mandeb, um corredor marítimo crucial que conecta o Mar Vermelho ao Oceano Índico e por onde transita cerca de 12% do petróleo comercializado globalmente por via marítima. Este estreito é fundamental para o tráfego em direção ao Canal de Suez.
A rota se tornou ainda mais importante recentemente, servindo como alternativa para o escoamento de petróleo do Oriente Médio, especialmente com o fechamento do Estreito de Ormuz. Em ocasiões anteriores, como durante a guerra em Gaza, os houthis já demonstraram capacidade de perturbar o tráfego marítimo no Estreito de Bab el-Mandeb, utilizando mísseis e drones.
Farea Al-Muslimi, pesquisador do centro de estudos britânico Chatham House, descreveu um bloqueio efetivo do estreito como “um pesadelo”, dada a sua importância econômica e estratégica. A ameaça houthi de controlar o estreito como parte de um “Eixo da Resistência” liderado pelo Irã levanta sérias preocupações para a segurança marítima internacional.
O Irã e o “Eixo da Resistência”: uma aliança em expansão
A agência semioficial iraniana Tasnim, ligada à Guarda Revolucionária, informou na quinta-feira, 26 de março, que os houthis estariam preparados para assumir o controle do Estreito de Bab el-Mandeb. Uma fonte militar iraniana declarou à agência que os houthis, formalmente conhecidos como Ansar Allah, “estão totalmente preparados para desempenhar um papel fundamental” se houver necessidade de controlar o estreito para “punir ainda mais o inimigo”.
Anteriormente, a mesma agência veiculou uma advertência de uma fonte anônima, que sugeria que os Estados Unidos deveriam ter cuidado para não “adicionar outro estreito aos seus problemas”, em referência a possíveis ações americanas no Estreito de Ormuz. O líder houthi, Abdul Malik Al-Houthi, já havia reforçado as ameaças de escalada militar em resposta a ataques dos EUA e de Israel.
Um dirigente houthi, em declaração anônima à Reuters, afirmou que o grupo está “militarmente pronto” para atacar o Estreito de Bab el-Mandab em apoio a Teerã. Diante dessas ameaças, os Estados Unidos emitiram um alerta sobre a possibilidade de ataques houthi na região, destacando que, apesar de não haver ataques a navios comerciais desde outubro de 2025, o grupo continua representando uma ameaça.
Quem são os Houthis e seu papel no conflito
Os houthis são um grupo armado político e religioso que representa a minoria muçulmana xiita zaidita do Iêmen. Eles se declaram parte do “Eixo da Resistência” contra Israel, os EUA e o Ocidente, alinhando-se a grupos como o Hamas e o Hezbollah. Fundado na década de 1990 por Hussein al-Houthi, o grupo ganhou força política em 2014, levantando-se contra o governo iemenita e, posteriormente, capturando a capital Sanaa em 2015.
A intervenção militar da Arábia Saudita e seus aliados em 2015 para tentar reempossar o presidente Hadi no poder não conseguiu derrubar os houthis, que continuam a controlar grandes partes do Iêmen. A capacidade e a disposição dos houthis de expandir suas ações militares para além das fronteiras do Iêmen representam um novo e preocupante capítulo no já complexo cenário de conflito no Oriente Médio.
