Munique elege seu primeiro prefeito abertamente gay, Dominik Krause, em um marco histórico para a cidade. A vitória do Partido Verde encerra uma longa era do SPD, mas ocorre em um contexto preocupante de aumento da homofobia na Alemanha.
Em um feito inédito para a terceira maior cidade da Alemanha, Munique elegeu Dominik Krause, do Partido Verde, como seu novo prefeito. Aos 35 anos, Krause não apenas quebrou uma hegemonia de 42 anos do Partido Social Democrata (SPD), mas também se tornou o primeiro prefeito assumidamente gay da capital da Baviera.
A eleição de Krause, um físico formado pela Universidade Técnica de Munique, é vista como um avanço significativo para a diversidade no país. Sua vitória, no entanto, acontece em um momento delicado, com um aumento alarmante nos crimes homofóbicos em toda a Alemanha, segundo dados recentes.
Apesar de sua orientação sexual ser conhecida e publicamente celebrada, a vida privada de Krause não foi um tema central durante a campanha eleitoral. Ele iniciou sua carreira política como vereador em 2014 e, em 2023, assumiu o cargo de vice-prefeito. A sua eleição é atribuída, em parte, ao desgaste das gestões anteriores do SPD e a uma Munique com inclinações de centro-esquerda.
Um marco para a diversidade e a política alemã
A eleição de um prefeito abertamente gay em Munique reflete um avanço na aceitação da comunidade LGBTQIA+ na Alemanha. Ao contrário de outros tempos, a sexualidade de Krause não foi um obstáculo, mas sim um ponto de orgulho para muitos. Seu noivado com o médico Sebastian Müller, com quem se beijou publicamente em celebração à vitória, gerou imagens que repercutiram nacionalmente.
Comparativamente, as duas maiores cidades alemãs, Berlim e Hamburgo, também elegeram prefeitos gays no início do século XXI, mas em circunstâncias distintas. Klaus Wowereit, em Berlim (2001), revelou sua homossexualidade pouco antes da eleição, declarando: “Sou gay, e isso é algo bom”. Já em Hamburgo (2003), Ole von Beust enfrentou uma tentativa de chantagem, mas obteve apoio popular.
A sombra da homofobia cresce na Alemanha
Apesar dos avanços na representatividade política, a Alemanha tem registrado um **aumento expressivo em crimes homofóbicos**. Em 2025, foram contabilizados 2.048 casos, o maior número na série histórica, com um crescimento acentuado desde 2017 e picos em 2023 e 2024. O número de crimes homofóbicos decuplicou desde 2010.
Este cenário alarmante acompanha o crescimento de movimentos e partidos de **extrema-direita** na Alemanha e em outras partes do mundo, cujos discursos frequentemente incitam a violência contra a comunidade LGBTQIA+. O secretário-geral do SPD, Kevin Kühnert, relatou que evita andar de mãos dadas com seu parceiro em público em Berlim devido ao aumento da violência.
A situação é tão preocupante que, em 2024, a chefe de polícia de Berlim chegou a recomendar que casais gays evitassem demonstrações de afeto em certas áreas da capital. Em 2025, duas paradas do orgulho LGBTQIA+ em Regensburg e Gelsenkirchen foram canceladas por motivos de segurança, após ameaças terem sido recebidas.
Políticas públicas em risco
Agravando o quadro, o governo conservador, liderado pelo chanceler Friedrich Merz, encerrou o plano nacional “Vida Queer”, que era o único programa federal dedicado à promoção dos direitos da população LGBTQIA+. Essa decisão levanta sérias preocupações sobre o futuro das políticas de inclusão e proteção para essa comunidade no país.
A eleição de Dominik Krause em Munique, portanto, representa um **momento de celebração e esperança**, mas também um alerta sobre os desafios que a comunidade LGBTQIA+ ainda enfrenta na Alemanha. A luta por igualdade e segurança continua sendo uma prioridade.
