Mutilação Genital Feminina na Colômbia: O Ciclo de Dor que Mulheres Emberá Lutam para Romper
A Colômbia se destaca como o único país da América Latina onde a mutilação genital feminina ainda é uma realidade. Uma prática ancestral, muitas vezes justificada por crenças culturais, causa dor, infecções e traumas duradouros em meninas e mulheres, especialmente nas comunidades indígenas Emberá.
Carla Quiñonez, uma mulher Emberá de 30 anos, vive essa dura realidade. Ela relata que sua filha, com apenas seis meses, foi submetida à mutilação genital por sua avó. O procedimento, que deveria ser um segredo, causou febre, inchaço e sangramento na menina, desencadeando uma série de complicações de saúde que persistem até hoje.
A luta de Carla e de outras mulheres para erradicar essa prática ganha força com a esperança de uma nova lei. O projeto, que já foi aprovado na Câmara dos Deputados, busca prevenir, atender e erradicar a mutilação genital feminina. No entanto, o caminho é árduo, repleto de desafios culturais e resistência, como aponta a parlamentar Carolina Giraldo.
A Dor Silenciada de Carla e sua Filha
Carla Quiñonez descreve o momento em que sua filha, hoje com quatro anos, apresentava os primeiros sinais de sofrimento após o procedimento. “Eu a recebi com febre, inchada e sangrando”, relata. Ao questionar a avó, a resposta foi evasiva: “era normal e que eu não poderia contar para ninguém”. A situação se agravou com a agressão do ex-marido, que acreditou que Carla tivesse permitido a mutilação.
A filha de Carla sofre frequentemente de dores e infecções urinárias, sintomas comuns entre sobreviventes da mutilação genital feminina. A pediatra Diana Ramos Mosquera, que atua no epicentro dos casos oficiais, em Risaralda, confirma que “Quando elas chegam mutiladas, observamos uma cicatriz”. A médica destaca que muitos casos não são registrados, sendo apenas a “ponta do iceberg”.
Raízes Culturais e a Luta pela Mudança
A mutilação genital feminina, definida pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como a remoção total ou parcial dos genitais externos femininos sem motivo médico, afeta milhões de meninas e mulheres globalmente. Na Colômbia, a prática é detectada entre as comunidades Emberá e afrocolombianas, em áreas marginalizadas e de difícil acesso.
Juliana Domico, consultora da Confederação Nacional dos Povos da Grande Nação Emberá da Colômbia, refuta a ideia de que a mutilação seja parte da cultura. “Nós somos as nossas roupas, artesanato, danças e idioma, não uma prática que mata. A cultura não mata”, afirma categoricamente. Ela acredita que a mutilação é fruto do “desconhecimento da anatomia e do machismo”.
Uma das teorias sobre a origem da prática na Colômbia sugere uma ligação com a época colonial e a escravidão africana. Outra hipótese, vinda da herança oral Emberá, aponta para uma fobia ao clitóris, originada há séculos a partir do nascimento de uma menina intersexual.
A Esperança de uma Nova Lei e os Desafios Futuros
A conscientização sobre a mutilação genital feminina na Colômbia ganhou força após a morte de uma bebê em 2007. Desde então, um movimento pela erradicação da prática vem crescendo, impulsionado por comunidades indígenas, autoridades e agências internacionais.
O projeto de lei que visa prevenir, atender e erradicar a mutilação genital feminina representa um marco importante. No entanto, a parlamentar Carolina Giraldo alerta para a dificuldade em unificar uma reação institucional, devido à concentração dos casos em certas comunidades. “Mas as discussões se aceleraram depois que foram noticiadas mutilações no Parque Nacional de Bogotá”, revela.
A lei em discussão aposta na prevenção, em vez da penalização. “O principal é salvar vidas. Se penalizarmos as avós e as parteiras, é menos provável que elas levem as crianças ao hospital. Mais meninas irão morrer”, argumenta Giraldo. Cada vez mais mulheres Emberá reconhecem que a mutilação é prejudicial e desejam um futuro diferente para suas filhas, onde seus corpos sejam respeitados e a dignidade preservada.
