Polymarket e Kalshi: Aposta da Direita em Sites Proibidos Vira Alternativa Viral às Pesquisas Eleitorais

VARIEDADES

Plataformas de mercado de previsões viralizam na direita como ‘termômetro’ alternativo às pesquisas eleitorais, mesmo após proibição no Brasil.

Sites como Polymarket e Kalshi, que funcionam como mercados de apostas sobre eventos futuros, ganharam destaque nas redes sociais brasileiras, especialmente entre grupos de direita. Eles são apresentados como um termômetro político e uma alternativa às pesquisas eleitorais convencionais.

Apesar de terem sido bloqueados no Brasil em abril, essas plataformas continuam sendo citadas e analisadas por políticos e influenciadores. A narrativa dominante é que os resultados dessas apostas refletem uma realidade eleitoral diferente da apresentada pelos institutos de pesquisa tradicionais.

Especialistas, no entanto, ressaltam que essas plataformas não são uma ferramenta confiável para traçar cenários eleitorais ou prever resultados. As informações sobre o bloqueio e a repercussão nas redes foram divulgadas pela BBC News Brasil.

Direita usa plataformas de apostas como contraponto a institutos de pesquisa

A análise de publicações na rede social X (antigo Twitter) revelou um aumento significativo nas menções ao Polymarket e Kalshi em português a partir de 2026. O conteúdo mais engajado frequentemente parte de contas associadas ao bolsonarismo e à direita.

Um dos posts de maior repercussão foi feito pelo ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL) em maio de 2026. Ele criticou o bloqueio das plataformas pelo governo Lula, afirmando que a intenção era impedir a visualização de uma suposta liderança de Flávio Bolsonaro nas apostas. O post teve mais de 16 mil curtidas e 5 mil compartilhamentos.

Na mesma linha, o empresário Paulo Figueiredo, apoiador da família Bolsonaro, publicou que o bloqueio do Polymarket era uma forma de censura, pois a plataforma teria um alto índice de acerto eleitoral e Flávio Bolsonaro estaria abrindo vantagem. Essa publicação também gerou alto engajamento.

Mudança de cenário e a influência das notícias nos mercados de previsão

No entanto, o cenário nas plataformas de apostas mudou no final de maio, com publicações indicando uma virada de Lula. Essas novas postagens associaram a queda de Flávio Bolsonaro nos mercados de previsão a áudios divulgados sobre pedidos de financiamento para um filme sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro.

Neste novo cenário, Lula aparecia na plataforma Polymarket com cerca de 44% de chances de vitória, enquanto Flávio Bolsonaro detinha aproximadamente 28%. Renan Santos aparecia em terceiro, com 13%.

O acesso a essas plataformas está bloqueado no Brasil, mas muitos usuários utilizam VPNs (Redes Privadas Virtuais) para contornar a restrição e acessar os conteúdos.

Especialistas alertam: apostas e pesquisas medem coisas diferentes

Raphael Nishimura, estatístico da Universidade de Michigan, explica que pesquisas eleitorais e mercados de apostas respondem a perguntas distintas. As pesquisas buscam estimar a intenção de voto, enquanto as plataformas de apostas calculam a probabilidade de um evento ocorrer com base no volume de dinheiro apostado.

Um percentual alto em uma plataforma de apostas não se traduz diretamente em intenção de voto. Ele reflete o que os usuários dessas plataformas estão dispostos a apostar, influenciados por uma série de fatores, incluindo as próprias pesquisas eleitorais.

Josilmar Cordenonssi, professor de Ciências Econômicas da Universidade Presbiteriana Mackenzie, acrescenta que as pesquisas exigem coleta de campo e tempo para apuração, enquanto os contratos de apostas reagem em tempo real a notícias e eventos.

Riscos e manipulação: os perigos dos mercados de previsão

Nishimura aponta que a agilidade em reagir a fatos novos é um diferencial dessas plataformas, mas também abre portas para riscos. Uma análise da Bloomberg News indicou que, entre 2025 e abril de 2026, o número de contas que perderam dinheiro em apostas significativas na Polymarket foi quase o dobro das que obtiveram lucro.

Outro levantamento do The Wall Street Journal mostrou que a maior parte dos ganhos na Polymarket se concentra em pouquíssimas contas. Isso sugere que empresas especializadas, com acesso a dados em tempo real e recursos de inteligência artificial, tendem a ter melhor desempenho.

Há também o risco de uso de informação privilegiada, como no caso de um militar americano denunciado por ganhar mais de US$ 400 mil apostando na captura de Nicolás Maduro antes do anúncio público. Nishimura também alerta para a possibilidade de manipulação direta dos números por grupos com grande volume financeiro, algo que não ocorre nas pesquisas eleitorais, que prezam pela reputação de seus métodos.

O bloqueio das plataformas foi determinado pelo Conselho Monetário Nacional (CMN), sob o argumento de que elas não podem ser tratadas como derivativos regulares no Brasil. O setor de apostas esportivas regulamentado no país, as chamadas bets, pressionou pelo bloqueio, argumentando que essas empresas estrangeiras não pagam outorgas para operar no Brasil.

Para Cordenonssi, o problema central é regulatório, pois essas plataformas driblam a regulamentação do mercado financeiro. A decisão foi proibir a atividade, permitindo que o mercado financeiro brasileiro organize esse tipo de atividade.

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