República Tcheca, a “Terra da Cerveja”, enfrenta queda histórica no consumo: entenda os motivos e o que dizem os especialistas.
A República Tcheca, conhecida mundialmente como a “Terra da Cerveja”, está vivenciando uma reviravolta em sua tradição de consumo da bebida. O país, que ostenta há décadas o título de maior consumidor de cerveja per capita, registrou uma queda recorde em 2025, atingindo o menor nível histórico. Essa mudança, embora preocupante para as cervejarias, é vista com bons olhos por especialistas em saúde e bem-estar.
Os bares tchecos são mais do que locais para beber; são centros sociais onde a comunidade se reúne para conversar, jogar e discutir a vida. Essa cultura, imortalizada na literatura por autores como Jaroslav Hasek e Bohumil Hrabal, sempre esteve intrinsecamente ligada à cerveja, um elemento fundamental da identidade nacional.
Mesmo em tempos de crise econômica, a cerveja tcheca, como a Pilsner Urquell, era um produto de exportação forte. A notícia mais recente divulgada pela Associação Tcheca de Cervejarias e Malteiras, de que o consumo nacional caiu para 121 litros por habitante em 2025, ofuscou até mesmo notícias sobre a alta dos combustíveis, evidenciando a importância da bebida para o país.
Busca por saúde e qualidade impulsionam nova era no consumo de cerveja
Conforme explica Tomas Slunecko, diretor-geral da Associação Tcheca de Cervejarias e Malteiras, a queda no consumo está ligada a uma mudança de prioridades na sociedade tcheca. “Nos últimos anos, os tchecos têm dado mais importância ao consumo moderado e adotado com mais frequência um estilo de vida saudável“, afirma Slunecko.
Essa nova mentalidade se reflete na forma como a cerveja é consumida. Os tchecos estão mais interessados na variedade da oferta e, acima de tudo, na qualidade, em detrimento da quantidade. O crescente interesse por cervejas sem álcool é um forte indicativo dessa tendência.
Além disso, a Associação Tcheca de Cervejarias e Malteiras observou que os tchecos estão consumindo cada vez mais cerveja fora dos bares e restaurantes. No ano passado, cerca de uma em cada quatro cervejas vendidas no país foi consumida em outros estabelecimentos comerciais, o que levou a associação a solicitar ao governo uma redução no IVA (Imposto sobre Valor Agregado) sobre a cerveja de barril para estimular o consumo em locais tradicionais.
Setor cervejeiro busca apoio governamental diante da queda na produção
O preço do chopp, por exemplo, sofreu um aumento considerável, passando de 40 para 50-60 coroas (aproximadamente R$ 11,60 a R$ 14,50) por meio litro. Essa alta, combinada com a diminuição do consumo também em países exportadores como a Alemanha, resultou em uma queda de 4,3% na produção total de cerveja na República Tcheca no ano passado, totalizando 1,9 milhão de litros.
A Associação Tcheca de Cervejarias e Malteiras vê a situação com preocupação e busca medidas para reverter o quadro, como a redução de impostos para o setor, visando manter a tradição cervejeira do país.
Especialistas celebram a redução como avanço para a saúde pública
Enquanto a geração mais antiga pode encarar a queda no consumo como um sinal de declínio da tradição, especialistas em dependência química e médicos celebram essa tendência. Tom Philipp, ex-vice-ministro da Saúde, destaca que a mudança é positiva para a saúde e segurança.
“Estamos gradualmente deixando de lado o hábito de beber cerveja seguindo o lema ‘o importante é beber muito’ e adotando a ideia de que é normal beber menos ou nem beber nada. E isso é uma boa notícia por motivos de saúde e segurança”, afirma Philipp. Ele ressalta que o consumo, que era de quase 160 litros por pessoa há 20 anos, hoje está em 121 litros, um avanço significativo.
Jovens tchecos bebem menos, mas enfrentam outros desafios relacionados ao álcool
A geração mais jovem, em geral, consome menos álcool do que as gerações anteriores, mas o risco de abuso ainda persiste. Katerina Duspivova, analista sênior do Instituto Tcheco de Pesquisa Empírica, alerta para o uso do álcool como substituto para a falta de serviços de aconselhamento e assistência entre os jovens.
Uma pesquisa de 2024 revelou que 14% dos jovens de 16 anos na República Tcheca bebiam para esquecer problemas, e 11% recorriam ao álcool em momentos de tristeza. “Os jovens tchecos passam mais tempo no mundo virtual, mas continuam enfrentando os problemas do mundo real”, observa Duspivova, apontando para a necessidade de mais apoio psicológico.
Embora o álcool não seja mais visto como tão “legal” pelos jovens tchecos como antes, novos riscos emergem. A mudança no comportamento juvenil é confirmada pelo Observatório Nacional de Drogas e Dependência, que aponta para a necessidade de maior atenção ao bem-estar psicológico das novas gerações.
