Roupas Velhas do Mundo Acumulam-se no Deserto Chileno: Nova Legislação Transforma Lixo Têxtil em Oportunidade de Negócio

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Roupas Velhas no Deserto Chileno: Do Problema Ambiental à Solução Econômica

O deserto do Atacama, no Chile, tornou-se um destino inesperado para milhares de toneladas de roupas usadas que chegam de todo o mundo. O que antes era um problema ambiental sem solução aparente, agora ganha contornos de oportunidade de negócio com uma nova legislação.

Milhões de peças de vestuário, muitas vezes sem serem revendidas, acabam descartadas em aterros improvisados, criando uma paisagem surreal e poluente. A situação chamou a atenção das autoridades e do setor privado, buscando alternativas sustentáveis.

A mudança na lei chilena visa a **responsabilidade estendida do produtor**, forçando empresas a gerenciar o ciclo de vida de seus produtos. Esta medida impulsiona a criação de novas indústrias voltadas para a reciclagem e o reaproveitamento de tecidos, como informa o centro de economia circular CircularTec.

A Zona Franca de Iquique e o Fluxo de Roupas Usadas

O norte do Chile, especialmente a zona franca do porto de Iquique (Zofri), é um ponto crucial na importação de roupas usadas. Segundo estimativas do governo chileno, o país importa anualmente cerca de **123 mil toneladas de vestuário usado**, sendo a Zofri a principal porta de entrada. Empresas locais e regionais importam, armazenam e revendem essas mercadorias com isenções fiscais, impulsionando a economia da região.

A Zofri, criada em 1975, tem como objetivo promover o desenvolvimento socioeconômico do norte chileno. O setor de importação de roupas usadas é um dos que mais gera empregos, especialmente para mulheres, que realizam a triagem e classificação das peças. Cerca de **10% das mulheres da região trabalham com tecidos**, em uma atividade acessível a pessoas sem qualificações específicas.

O Destino Final das Roupas Não Vendidas

O desafio surge com as peças que não conseguem ser vendidas no mercado local ou exportadas. A legislação local proíbe o descarte em aterros sanitários comuns, destinados apenas a resíduos domésticos. Os comerciantes são obrigados a escolher entre exportar as roupas, pagar impostos para vendê-las no Chile fora da zona franca, ou enviá-las para empresas autorizadas de tratamento de resíduos.

Contudo, o custo dessas alternativas leva muitos a optarem por métodos ilegais. Queimar as roupas ou descartá-las no deserto do Atacama são práticas comuns, mas **ilegais**. As estimativas mais recentes indicam que cerca de **39 mil toneladas de roupas são descartadas desta maneira anualmente**, causando um grave impacto ambiental.

A prefeitura de Alto Hospicio, cidade próxima ao local de descarte, enfrenta dificuldades em monitorar e coibir a prática. Miguel Painenahuel, do setor de planejamento da cidade, explica que o acesso facilitado ao deserto e a falta de recursos suficientes tornam a fiscalização um desafio constante. Patrulhas com carros e câmeras tentam flagrar os infratores, mas a quantidade de caminhões envolvidos dificulta o controle.

Inovação e Oportunidade: A Nova Fábrica de Reciclagem Têxtil

Em meio a esse cenário, surge uma solução promissora. Luis Martínez, diretor-executivo do Centro Tecnológico de Economia Circular (CircularTec), lidera iniciativas para **remodelar e reutilizar roupas velhas não vendidas**. O objetivo é evitar que o deserto do Atacama se torne um ponto turístico macabro de montanhas de lixo têxtil.

Uma nova fábrica, administrada por uma empresa privada, está sendo construída no deserto. O empresário Bekir Conkur, um dos maiores importadores de têxteis da região, investiu cerca de **US$ 7 milhões** neste empreendimento. A expectativa é processar uma grande parte do estoque indesejado de roupas.

A fábrica, que deve entrar em operação em poucos meses, utilizará máquinas que transformarão as roupas em fibras e, posteriormente, em feltro. Este material será empregado na fabricação de colchões, mobília, interiores de automóveis e isolamento. A planta terá capacidade para processar **20 toneladas de tecido por dia**, sem a necessidade de água ou substâncias químicas.

Legislação Chilena Impulsiona a Economia Circular

A decisão de investir na nova fábrica foi motivada, em parte, pela **mudança na legislação chilena**. Em julho do ano passado, os tecidos foram incluídos na Lei de Responsabilidade Estendida do Produtor. Essa lei responsabiliza as empresas pelo ciclo de vida completo de seus produtos, incluindo a coleta, reutilização, reciclagem ou descarte adequado.

Para as empresas do setor de vestuário, isso significa que marcas, varejistas e importadores deverão financiar e organizar a gestão dos resíduos têxteis, sem que o custo recaia sobre os governos locais ou o Ministério do Meio Ambiente. O governo chileno ainda está definindo os detalhes específicos para o setor de vestuário, mas a iniciativa já representa uma **grande oportunidade de negócio**.

Bekir Conkur acredita que sua fábrica tem potencial para absorver o estoque de roupas indesejado do Chile e, futuramente, de outros países. A nova legislação chilena é vista como um catalisador para a **economia circular no setor têxtil**, transformando um problema ambiental em uma fonte de inovação e desenvolvimento econômico.

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