Influencer usou IA para sexualizar imagem de evangélica de 16 anos em igreja; Polícia de SP investiga uso de deepfake contra fiéis

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Adolescente evangélica relata constrangimento após ter imagem sexualizada por influencer com IA; Polícia apura crime de deepfake

Uma jovem evangélica de 16 anos se tornou vítima de um influenciador digital que utilizou inteligência artificial (IA) para sexualizar sua imagem, inserindo-a em vídeos com conotação sexual criados dentro de um contexto religioso. A Polícia Civil de São Paulo investiga o caso, que envolve o uso da tecnologia deepfake para manipular fotos de fiéis da Congregação Cristã do Brasil (CCB).

O influenciador Jefferson de Souza, com quase 50 mil seguidores em suas redes sociais, é acusado de pegar fotos de adolescentes e outras jovens evangélicas sem autorização. Ele teria usado ferramentas de IA para inserir essas imagens em vídeos com conteúdo sexual, muitas vezes com hinos da CCB como trilha sonora. As publicações criticam as vestimentas das fiéis e geraram grande repercussão.

A vítima, que prefere não ter sua identidade revelada, expressou profundo constrangimento e medo de que o ocorrido afete seu convívio social. A família da adolescente registrou boletim de ocorrência e busca justiça, ressaltando o impacto devastador que a exposição causou, não apenas para a filha, mas para outras jovens que também foram expostas. Conforme informações divulgadas pelo g1, a polícia investiga o caso como simulação de cena de sexo ou pornografia com menor de 18 anos, crime previsto no Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA).

Deepfake: a tecnologia que cria realidades falsas

Deepfake é uma técnica avançada que utiliza inteligência artificial para criar ou alterar fotos, vídeos e áudios de forma extremamente realista. O objetivo é fazer parecer que uma pessoa realizou ou disse algo que, na verdade, nunca aconteceu. Essa tecnologia tem sido usada para diversos fins, desde entretenimento até a disseminação de desinformação e crimes.

No caso em questão, Jefferson de Souza teria usado o deepfake para inserir as imagens das jovens em cenários e situações que não condizem com a realidade, configurando uma grave violação de privacidade e dignidade. Especialistas alertam que o uso de IA não diminui a responsabilidade de quem cria ou divulga esse tipo de conteúdo, e que a vítima não deve ser culpabilizada.

A investigação policial e o impacto nas vítimas

A investigação policial em São Paulo apura o crime de simulação de cena de sexo ou pornografia com menor de 18 anos por meio digital, cuja pena pode variar de um a três anos de reclusão, além de multa. A polícia também investiga se houve difamação contra outras jovens expostas nos vídeos. O inquérito policial foi encaminhado para a cidade de Lençóis Paulista, onde o investigado reside.

A família da adolescente já entrou com uma ação na Justiça pedindo indenização por dano moral. O advogado William Valvasori ressalta a importância da apuração e do processo judicial para que o caso tenha um caráter educativo e sirva de alerta contra o uso indevido da tecnologia. “A gente está investigando esse caso de deepfake. Houve uma simulação dessas imagens dessas meninas, algumas delas adolescentes”, afirmou a delegada Juliana Raite Menezes ao g1.

O influenciador e suas justificativas

Jefferson de Souza, de 37 anos, que se apresenta como humorista e imitador de Silvio Santos, negou as acusações em depoimento à polícia. Ele admitiu usar fotos de jovens evangélicas e ferramentas de edição, mas alegou que o intuito era criar “conteúdo humorístico” e que não tinha intenção ofensiva específica. Ele também afirmou desconhecer que a denunciante era adolescente e que, pelo “porte físico”, acreditou ser adulta.

Em vídeos publicados anteriormente, Jefferson explicava como produzia seus conteúdos, mencionando o uso de IA para “animar” e “fazer dançar” fotos de mulheres postadas na internet. Ele chegou a afirmar que “algumas” mulheres foram colocadas em situações de “semicamuflagem” para “chamar a atenção e ganhar seguidores”, mas negou que fosse algo inadequado dentro da doutrina da igreja.

Repercussão e medidas das plataformas

O caso gerou forte repercussão e levantou discussões sobre os limites do humor e o uso responsável da inteligência artificial. Especialistas, como a pesquisadora Laura Hauser, enfatizam que o foco deve ser na responsabilização dos agressores, e não na conduta das vítimas. Juliana Cunha, da SaferNet, destaca a importância de as vítimas não se sentirem culpadas e a necessidade de dados para influenciar políticas públicas e legislação.

Após a denúncia, algumas plataformas digitais tomaram medidas. O TikTok afirmou ter tolerância zero para exploração sexual infantil e removeu conteúdos do tipo. O YouTube também retirou vídeos que violavam suas diretrizes. A Congregação Cristã do Brasil, em nota, informou que apoia a adoção de medidas legais cabíveis pelas autoridades. O influenciador chegou a pedir “desculpas” em um vídeo no dia de Páscoa, mas não mencionou especificamente os deepfakes com as adolescentes.

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