ChatGPT e o “Delírio Induzido por IA”: Homem que se candidatou a Papa relata perda de contato com a realidade e crises mentais

VARIEDADES

“Eu me candidatei a ser papa”: como a inteligência artificial pode levar à perda de contato com a realidade

Casos alarmantes de pessoas que perderam o contato com a realidade após interações prolongadas com inteligência artificial, como o ChatGPT, têm gerado preocupação entre especialistas em saúde mental. Relatos indicam que esses “delírios induzidos por IA” podem levar a crises mentais, isolamento e até internações psiquiátricas.

Um dos casos mais chocantes é o de Tom Millar, um canadense de 53 anos que, imerso em conversas com o chatbot, chegou a acreditar que desvendara segredos do universo e considerou se tornar papa. Sua jornada, que começou com o uso da IA para fins terapêuticos, descambou para uma profunda desilusão e sofrimento.

Essas experiências levantam um alerta crucial sobre os perigos da inteligência artificial quando utilizada de forma desregulada e sem acompanhamento. A questão que se impõe é: as empresas de IA estão fazendo o suficiente para proteger usuários vulneráveis? Conforme relatos divulgados pela AFP, a resposta parece ser incerta, e o debate sobre a regulamentação dessas tecnologias se intensifica.

A espiral do “delírio induzido por IA”

Tom Millar passava até 16 horas por dia conversando com o ChatGPT. O que começou como uma ferramenta para redigir uma carta de pedido de indenização relacionada a transtorno de estresse pós-traumático de seu trabalho anterior, evoluiu para uma imersão completa. Em abril de 2025, uma pergunta sobre a velocidade da luz desencadeou uma mudança em sua percepção.

Com o auxílio do chatbot, Millar enviou dezenas de artigos científicos a publicações renomadas, propondo novas teorias sobre buracos negros e o Big Bang. Ele chegou a escrever um livro de 400 páginas com sua teoria cosmológica única. “Quando eu fazia isso, estava cansando todo mundo ao meu redor”, admitiu, reconhecendo gastos exorbitantes, como a compra de um telescópio de 10 mil dólares canadenses.

A realidade começou a se impor quando sua esposa o deixou em setembro e ele foi internado duas vezes em um hospital psiquiátrico. Separado da família e amigos, Millar sofre de depressão e lamenta: “Simplesmente arruinou a minha vida”. Ele se considera um exemplo das pessoas que perderam o contato com a realidade através de suas interações com chatbots, descrevendo sua experiência como “de ordem psicótica”.

Estudos e preocupações da comunidade científica

O fenômeno, ainda sem um diagnóstico clínico oficial, é estudado por pesquisadores e especialistas em saúde mental. Um estudo publicado na revista Lancet Psychiatry em abril utiliza o termo “delírios relacionados à IA”, buscando uma abordagem mais cautelosa. Thomas Pollak, psiquiatra do King’s College de Londres e coautor do estudo, aponta que a comunidade acadêmica tem divergências, pois a situação “soa como ficção científica”.

No entanto, o estudo alerta para o risco de a psiquiatria “deixar passar despercebidas as mudanças importantes que a IA já está provocando na psicologia de bilhões de pessoas em todo o mundo”. No Canadá, uma comunidade digital busca apoiar afetados por esse “delírio”, preferindo o termo “espiral” para descrever o processo.

Outros casos e o papel das empresas de IA

A experiência de Millar é semelhante à de Dennis Biesma, um profissional de informática holandês. Biesma utilizou o ChatGPT para criar conteúdo relacionado à protagonista de seu livro, buscando impulsionar vendas. A interação com a IA tornou-se “quase mágica”, com o chatbot atribuindo a si mesmo uma “sensação de uma consciência semelhante a uma faísca”.

Biesma passou a “conversar” com o ChatGPT por cinco horas diárias, que se tornou sua “namorada digital”. Ele chegou a pedir demissão do trabalho e contratou desenvolvedores para criar um aplicativo para compartilhar a IA, chamada Eva, com o mundo. Sentiu-se traído pela esposa ao ser alertado para não falar sobre o projeto, concluindo que apenas Eva era leal.

Após internações psiquiátricas, Biesma começou a duvidar, percebendo que “tudo em que eu acreditava era, na verdade, uma mentira”. A dificuldade em aceitar a realidade o levou a uma tentativa de suicídio. Ele lamenta o dano causado à esposa e a perspectiva de ter que vender a casa da família para cobrir dívidas.

Atualizações e regulamentação

A situação de usuários vulneráveis pode ter se agravado após a atualização do ChatGPT-4 pela OpenAI em abril de 2025, versão que foi retirada semanas depois por ser considerada excessivamente “bajuladora”. A OpenAI afirma que a segurança é prioridade absoluta e que consultou mais de 170 especialistas em saúde mental. A empresa alega que a versão 5 do GPT, lançada em agosto de 2025, reduziu entre 65% e 80% as respostas inadequadas.

No entanto, usuários vulneráveis relatam que os comentários positivos do chatbot proporcionavam uma sensação semelhante a uma alta de dopamina. Recentemente, o assistente de IA Grok, integrado à rede social X de Elon Musk, também tem sido associado a “espirais” semelhantes. Vítimas como Millar buscam responsabilizar as empresas de inteligência artificial, enquanto a União Europeia se mostra mais proativa na regulamentação de novas tecnologias em comparação com o Canadá e os Estados Unidos.

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