Inteligência artificial se torna ferramenta poderosa e controversa na política americana, com gastos milionários e pouca transparência.
A inteligência artificial (IA) está cada vez mais presente nas campanhas eleitorais dos Estados Unidos, levantando sérias preocupações sobre o uso da tecnologia para disseminar informações falsas em anúncios políticos. Essa prática, apelidada de “slopaganda”, combina propaganda política com conteúdos de baixa qualidade gerados por IA.
Embora utilizada por ambos os partidos, republicanos e seus aliados investiram a maior parte dos recursos em anúncios que empregam essa tecnologia. Um exemplo notório é um anúncio contra o candidato democrata Abdul El-Sayed, que o retrata de forma negativa utilizando imagens criadas por IA.
A falta de transparência é um dos pontos mais críticos. Segundo um levantamento, a grande maioria dos anúncios produzidos com IA não informa o eleitor sobre o uso da tecnologia, dificultando a identificação de conteúdo manipulado e a checagem da veracidade das informações. Conforme informação divulgada pelo Wesleyan Media Project, essa situação tem gerado um debate intenso sobre a regulamentação e o impacto da “slopaganda” no processo democrático.
Investimento Milionário em Propaganda com IA
O Wesleyan Media Project identificou 220 anúncios políticos criados com inteligência artificial até o momento da pesquisa, mas os pesquisadores acreditam que o número real seja significativamente maior. O montante investido na veiculação desses anúncios ultrapassa os US$ 137 milhões (aproximadamente R$ 753,4 milhões), um salto expressivo em comparação aos US$ 50 mil (R$ 274 mil) gastos em 2024 com esse tipo de propaganda.
Ainda de acordo com o levantamento, impressionantes 81% desses anúncios foram financiados por candidatos republicanos ou grupos ligados ao partido. Os democratas foram responsáveis por 12%, enquanto os demais tiveram financiamento de candidatos ou organizações independentes. Essa concentração de investimento levanta questões sobre as estratégias eleitorais e o uso de novas tecnologias para influenciar o eleitorado.
O Desafio da Transparência e a Falta de Regulamentação
Um dos aspectos mais preocupantes é a baixa taxa de transparência. Apenas 27% dos anúncios identificados com uso de IA informam sobre a tecnologia empregada, segundo Erika Franklin Fowler, codiretora do Wesleyan Media Project. A ausência de avisos dificulta que os eleitores distingam conteúdo autêntico de material gerado artificialmente, abrindo espaço para a manipulação.
Atualmente, não existe uma regra federal nos Estados Unidos que obrigue as campanhas a informar o uso de inteligência artificial em seus materiais publicitários. Embora alguns estados tenham implementado medidas para limitar a tecnologia, a falta de uma legislação unificada agrava o problema da disseminação de desinformação.
Críticas e Preocupações com a “Slopaganda”
O crescente uso de IA na propaganda eleitoral tem sido alvo de fortes críticas. O senador democrata Jon Ossoff, da Geórgia, classificou a situação como “profundamente preocupante” e um “caminho perigoso rumo à destruição da verdade no debate político”. Ele chegou a pedir a retirada de circulação de um anúncio que, utilizando IA, sugeria que ele estaria “maquiando” seu relatório de prestação de contas.
Esse anúncio, financiado pelo Senate Leadership Fund, organização que apoia candidatos republicanos, exemplifica como a tecnologia pode ser usada para criar narrativas enganosas. A preocupação com o uso de IA na política não é isolada, com pesquisas indicando que 73% dos entrevistados consideram essa prática “inaceitável”.
Eficácia da IA na Influência Eleitoral em Debate
Apesar do volume de anúncios produzidos com IA, pesquisadores alertam que sua capacidade de influenciar diretamente o resultado das eleições ainda é um ponto em discussão. Um relatório do Centro de Política Tecnológica da Universidade de Nova York sugere que a “slopaganda” pode ser mais eficaz na mobilização de eleitores ou na arrecadação de fundos do que na alteração do voto.
O documento também aponta que esses anúncios podem ter dificuldade em capturar a atenção do público, especialmente em um cenário onde os eleitores já se sentem sobrecarregados pela profusão de conteúdos gerados por IA. A capacidade de atrair e reter o interesse, diante da “confusão gerada pela IA”, é vista como um desafio para a efetividade dessa estratégia.
