Juíza morre após coleta de óvulos: médico resistiu a operar paciente com hemorragia por 28 horas
Uma juíza de 39 anos, Mariana Francisco Ferreira, faleceu após um procedimento de coleta de óvulos em Mogi das Cruzes, São Paulo. A magistrada, que atuava no Rio Grande do Sul, sentiu fortes dores e retornou à clínica, sendo posteriormente encaminhada ao Hospital e Maternidade Mogi-Mater com um quadro de hemorragia aguda.
O caso ganhou repercussão após depoimentos de médicas que atenderam Mariana revelarem que a equipe alertou o médico responsável pela coleta, Maurício Ligabô, sobre a necessidade urgente de cirurgia. No entanto, a intervenção só foi autorizada cerca de 28 horas após a entrada da juíza no hospital.
As informações constam em depoimentos prestados à Polícia Civil e obtidos com exclusividade pelo Estadão e g1. O caso foi registrado como morte suspeita e as autoridades seguem investigando as circunstâncias que levaram ao óbito da magistrada, que sonhava em ser juíza desde a adolescência.
Alerta ignorado: Hemorragia aguda e resistência à cirurgia
Conforme relatos de uma das médicas que atendeu Mariana no Hospital Mogi-Mater, o quadro da juíza era grave, com baixa hemoglobina e líquido livre na cavidade uterina. Apesar dos alertas sobre a necessidade de uma cirurgia de emergência, o médico Maurício Ligabô inicialmente considerou o quadro como normal, decorrente da hiperestimulação ovariana, e optou por um tratamento medicamentoso.
Durante a madrugada, novos exames indicaram o agravamento do estado de Mariana, levando a equipe a administrar morfina para aliviar a dor e a contatar Ligabô novamente. O médico retornou aos chamados na manhã seguinte, informando que estava a caminho do hospital. Contudo, mesmo com a persistência dos sinais de sangramento excessivo e alterações em exames de imagem, Ligabô se mostrou resistente à cirurgia.
Médico insistiu em diagnóstico alternativo e adiou procedimento
Apesar de não ser sua especialidade, a médica que acompanhava Mariana entendeu que a intervenção cirúrgica era crucial para identificar o foco da hemorragia. Ela informou Ligabô sobre a gravidade do caso, mas ele insistiu em sua hipótese diagnóstica de hiperestimulação ovariana, solicitando novos exames e medicamentos. A equipe do hospital alertou que casos como o de Mariana não deveriam ser conduzidos dessa forma.
O médico avaliou Mariana pessoalmente e constatou alterações nos sinais vitais e clínicos evidentes de gravidade, mas manteve sua conduta de não intervir cirurgicamente. Ele deixou o hospital por volta das 9h, e somente após novas e insistentes comunicações da equipe médica, e com a situação da paciente cada vez mais crítica, ele retornou ao hospital às 18h30 do dia 5 de maio.
Intervenção tardia e óbito da magistrada
Mesmo com a persistência da gravidade do quadro, Ligabô manteve sua hipótese diagnóstica. Foi realizado um procedimento de paracentese para demonstrar a presença de sangue e a urgência da cirurgia. Uma colega médica, demonstrando insatisfação com a conduta, teria dito a Ligabô para arrumar um médico urgente para operar a paciente, pois ela estava lutando pela vida.
Mariana foi encaminhada ao centro cirúrgico por volta das 21h do dia 5 de maio. A médica relatou à polícia que nunca viu um médico tão resistente e teimoso em oito anos de atuação, expressando preocupação com o atraso na resolução do problema. Conforme o relato, Ligabô teria reagido com risadas à gravidade da situação. Mariana Francisco Ferreira faleceu na manhã do dia 6 de maio.
Nota dos envolvidos e investigação
A Secretaria de Segurança Pública (SSP) confirmou que a mãe da vítima registrou o ocorrido, relatando que Mariana realizou a coleta de óvulos e, após sentir fortes dores, retornou à clínica e foi encaminhada ao hospital com hemorragia aguda. O Hospital e Maternidade Mogi-Mater informou que a paciente recebeu atendimento imediato e todas as medidas cabíveis foram adotadas, lamentando o óbito. A defesa de Maurício Ligabô ainda não foi localizada.
A investigação policial busca esclarecer todos os fatos que levaram à morte da jovem juíza, com o caso registrado como morte suspeita no 1º DP de Mogi das Cruzes. A Clínica Invitro Reprodução Assistida também foi procurada para comentar o caso.
