O “Modelo Bukele”: Como Megaprisões de El Salvador Viraram Inspiração para Direita Radical Global

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O “Modelo Bukele”: Como Megaprisões de El Salvador Viraram Inspiração para Direita Radical Global

A política de “pulso firme” do presidente salvadorenho Nayib Bukele, focada em megaprisões e detenções em massa, tem atraído a atenção de líderes de direita na América Latina e Europa. A estratégia, que promete reduzir a criminalidade drasticamente, é apresentada como um modelo de sucesso, mas sua aplicação em outros países tem mostrado resultados limitados, enquanto levanta sérias preocupações com direitos humanos.

Nas últimas campanhas eleitorais em países como Colômbia e Peru, a admiração por Bukele e suas táticas de segurança se manifestou em propostas concretas. Candidatos prometeram a construção de megaprisões inspiradas no Centro de Confinamento do Terrorismo (Cecot) de El Salvador, um centro que já foi alvo de inúmeras denúncias de abusos.

A repercussão do chamado “modelo Bukele” ultrapassa fronteiras, alcançando a Europa. Na França, o líder do partido de extrema direita Reagrupamento Nacional, Jordan Bardella, citou o sistema penitenciário salvadorenho ao discutir a superlotação de prisões em seu país. Essa convergência demonstra o apelo da retórica de “mão forte” para setores conservadores e de direita radical globalmente. Conforme divulgado pela BBC News Mundo, especialistas alertam, no entanto, que a promoção desse modelo frequentemente omite as graves violações de direitos humanos documentadas.

A Autocracia Eleitoral e o Apelo Popular

A pesquisadora Sonja Wolf, autora do livro “Mano Dura”, explica que a atração pelo “modelo Bukele” se deve, em parte, à falta de compreensão sobre o contexto político em que ele se desenvolveu. “Muitos não entendem o regime político que Bukele vem consolidando”, afirma Wolf. Ela descreve o sistema como uma “autocracia eleitoral”, onde a manutenção no poder depende da demonstração de apoio popular.

O regime de exceção em El Salvador, que permite detenções em massa, cumpre uma dupla função: combater o crime e fortalecer a legitimidade política de Bukele. “Além das eleições, é fundamental para Bukele manter altos níveis de popularidade”, ressalta Wolf. Apesar dos custos para os detidos e para a democracia, o regime conta com apoio popular, sustentando o projeto político do presidente.

A projeção internacional das políticas de Bukele também é crucial. “A promoção do regime de exceção no exterior e as visitas de líderes políticos a locais como o Cecot contribuem para reforçar sua imagem e legitimar sua permanência no poder”, analisa a pesquisadora. Ao ser reeleito com mais de 80% dos votos, Bukele celebrou seus resultados em segurança, rebatendo críticas sobre direitos humanos e afirmando ter “priorizado os direitos das pessoas honradas sobre os dos criminosos”.

Resultados Questionáveis e Custos Humanos Elevados

A estratégia de “pulso firme” de Bukele oferece uma resposta aparentemente rápida e visível à insegurança, uma das principais preocupações dos eleitores. As imagens de milhares de presos e a drástica redução nos índices de homicídios em El Salvador projetam a ideia de eficácia, transformando o país de um dos mais violentos para um dos mais seguros do continente. No entanto, essa política gerou altos custos.

Organizações como a Cristosal e a Human Rights Watch denunciam que o regime de exceção normalizou a detenção em massa sem controle judicial adequado, resultando em milhares de detidos sem provas suficientes. A Human Rights Watch documentou casos de tortura, maus-tratos, detenções arbitrárias e desaparecimentos forçados, além da debilitacão das instituições democráticas e da falta de garantias judiciais. Especialistas da ONU alertam que detenções prolongadas sem acesso à assistência legal configuram grave violação do direito internacional.

Um relatório conjunto da Human Rights Watch e Cristosal sobre o Cecot concluiu que os casos de tortura e maus-tratos “não foram incidentes isolados, mas sim violações sistemáticas, repetidas ao longo de toda a detenção”. A atração pelo “modelo Bukele” não se resume à segurança, mas também às suas dimensões políticas, com líderes observando a alta popularidade do presidente como um sinal de que essa retórica gera apoio eleitoral.

Dificuldades na Exportação do Modelo

Apesar do apelo, analistas alertam que o “modelo Bukele” é de difícil exportação e depende de condições específicas de El Salvador, além de decisões políticas que nem sempre seriam viáveis ou legais em outros países. O Equador tentou replicar elementos do modelo salvadorenho, declarando um “conflito armado interno” e militarizando a segurança, mas os níveis de violência permaneceram elevados. O índice de homicídios equatoriano aumentou significativamente entre 2020 e 2025.

Honduras, sob a presidência de Xiomara Castro, também adotou medidas de “pulso firme” inspiradas em El Salvador, com estados de exceção e militarização. Contudo, não houve uma redução sustentada da violência, e o país continua sendo um dos mais violentos da região. Segundo Juanita Goebertus, da Human Rights Watch, o “modelo Bukele” não se baseia apenas em prisões em massa, mas também em concentração de poder, enfraquecimento da supervisão judicial e, supostamente, acordos secretos com gangues, fatores que dificultam sua replicação eficaz em outros contextos.

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