O poder no Irã é fragmentado? Descubra quem toma as decisões cruciais em meio à guerra e à incerteza política
Desde o início do conflito entre Estados Unidos e Irã, uma pergunta ecoa em Teerã e no cenário geopolítico global: quem detém o poder de decisão no Irã? A suposta ascensão de Mojtaba Khamenei ao posto de líder supremo, após a morte de seu pai, Ali Khamenei, em 28 de fevereiro, trouxe uma nova dinâmica. No entanto, a realidade do poder no país parece ser muito mais complexa e difusa do que a estrutura formal sugere.
O sistema da República Islâmica foi concebido para que o líder supremo tenha a palavra final sobre questões vitais, como guerra, paz e a direção estratégica do Estado. Contudo, a ausência de Ali Khamenei, conhecido por sua comunicação clara e arbitragem visível entre facções, criou um vácuo de interpretação e uma percepção de liderança fragmentada. A Casa Branca, por exemplo, aguarda uma “proposta unificada” de Teerã, indicando a dificuldade em identificar um interlocutor único e decisivo.
A mensagem oficial de que “não existe radical ou moderado no Irã, existe apenas uma nação, um rumo” busca unificar a imagem pública, mas as ações e a atuação de diferentes atores políticos e militares sugerem uma realidade de poder mais distribuída e, por vezes, conflitante. Essa ambição por unidade contrasta com a aparente autonomia crescente de setores como o Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica (CGRI).
A Liderança de Mojtaba Khamenei Sob Escrutínio
Ainda que Mojtaba Khamenei seja formalmente o novo líder supremo, sua influência direta nas decisões cotidianas é incerta. Poucas evidências concretas de seu controle emergem, além de declarações escritas, como a que mantém o Estreito de Ormuz fechado. Autoridades iranianas admitiram que ele foi ferido nos ataques iniciais, com o “The New York Times”, citando fontes iranianas, reportando que ele pode ter sofrido lesões faciais que dificultam sua fala.
A autoridade no Irã não é apenas institucional, mas também performativa. A ausência de Ali Khamenei, que sinalizava suas intenções por meio de discursos e aparições públicas, deixa um “vazio de interpretação”. A tomada de decisões parece, portanto, menos centralizada do que antes do conflito, gerando incertezas sobre a direção estratégica do país.
O Papel da Presidência e da Diplomacia em um Cenário Incerto
Formalmente, a diplomacia do Irã recai sobre o governo de Masoud Pezeshkian. O chanceler Abbas Araghchi tem representado Teerã nas conversas com os Estados Unidos, atuando mais em um papel operacional do que decisório. Sua rápida retratação sobre a reabertura do Estreito de Ormuz, após inicialmente sugerir a retomada do tráfego, ilustra o quão pouco o canal diplomático controla as decisões militares.
Pezeshkian, considerado uma figura moderada, tem se alinhado à orientação geral da República Islâmica sem impor uma linha independente. Os atrasos na segunda rodada de conversas com os EUA em Islamabad reforçam a ideia de um sistema incapaz ou relutante em se comprometer, mesmo com canais diplomáticos abertos. A diplomacia está ativa, mas não parece ser decisiva no atual cenário.
O Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica e o Controle de Ormuz
O controle do Estreito de Ormuz é uma das principais alavancas de poder do Irã. As decisões sobre seu fechamento, no entanto, recaem sobre o Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica (CGRI), liderado por Ahmad Vahidi, e não sobre a equipe diplomática. Isso coloca o poder real nas mãos de atores que operam a portas fechadas, com o CGRI ditando o ritmo da crise através de suas ações, como o fechamento de Ormuz e ataques no Golfo.
As respostas políticas e diplomáticas frequentemente seguem essas decisões militares, em vez de liderá-las. Essa dinâmica sugere uma ampliação da autonomia operacional do CGRI, especialmente na ausência de uma arbitragem política clara. O establishment militar possui alavancas-chave, mas sem um arquiteto público claro para suas ações.
Mohammad Baqer Qalibaf: Uma Figura Visível em Meio à Ambiguidade
Em meio a essa complexidade, Mohammad Baqer Qalibaf, ex-comandante da Guarda Revolucionária e atual presidente do Parlamento, emerge como uma das figuras mais visíveis. Ele tem se inserido nas negociações e falado ao público, enquadrando a guerra em termos pragmáticos. Contudo, a resistência à negociação dentro do Parlamento e nos círculos conservadores é forte, com a mídia estatal e campanhas públicas apresentando as negociações como sinal de fraqueza.
A posição de Qalibaf é precária: ativa, mas não claramente autorizada. Ele insiste que suas ações estão alinhadas com os desejos de Mojtaba Khamenei, mas faltam evidências visíveis de coordenação direta. Essa ambiguidade é reveladora em um sistema que depende de sinais vindos do topo.
Em suma, o sistema iraniano funciona, mas não é conduzido de maneira coerente. A autoridade do líder supremo existe, mas não é exercida visivelmente. A Presidência está alinhada, mas não lidera. A diplomacia está ativa, mas não é decisiva. Figuras políticas avançam, mas sem uma legitimidade nítida. A República Islâmica permanece intacta, mas luta para converter sua influência em uma estratégia definida. A coerência, no modelo político iraniano, é mantida por meio de indicações, e a questão que paira é se essa coerência está sendo praticada ou apenas declarada em um momento de pressão aguda.
