Empresas americanas pedem isenção de tarifas sobre produtos brasileiros, alegando insubstituibilidade.
Uma batalha comercial se desenha em Washington, onde empresas americanas de diversos setores, como mineração, madeira, construção e educação, manifestam forte oposição à proposta do governo de impor uma tarifa adicional de 25% sobre produtos brasileiros. A justificativa central é a dependência crítica de insumos provenientes do Brasil, argumentando que não existem fornecedores em outros países capazes de suprir a demanda com a mesma qualidade, escala e preço.
Essas companhias temem que a nova sobretaxa, impulsionada por uma investigação do Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR) sobre práticas comerciais brasileiras, aumente seus custos operacionais, prejudique suas atividades e reduza a competitividade da indústria americana. O g1 apurou que, além das empresas, entidades setoriais também enviaram manifestações ao USTR contestando a medida.
A mobilização ocorre às vésperas de uma audiência pública crucial, marcada para 6 de julho, onde representantes dos setores afetados apresentarão seus argumentos ao governo americano. O Brasil, por sua vez, atua em frentes diplomáticas e técnicas para reverter a proposta, buscando negociações com Washington.
Pedras Brasileiras: Um Pilar Insubstituível para o Mercado Americano
A GeoCentral, uma atacadista especializada em pedras, cristais e fósseis sediada em Ohio, é um exemplo claro dessa dependência. Segundo George White, CEO da CM Paula, controladora da GeoCentral, mais de 25% de seu portfólio é importado do Brasil, com destaque para pedras semipreciosas de estados como Minas Gerais e Rio Grande do Sul. Essas pedras, que percorrem milhares de quilômetros até os EUA, são transformadas em itens de decoração, presentes e lembranças.
White enfatiza que a compra de produtos brasileiros não é uma questão de preferência, mas de necessidade. Ele destaca que o Brasil possui uma infraestrutura mineradora robusta e difícil de replicar, com capacidade para extrair, cortar, polir e preparar pedras em larga escala. “Simplesmente não existem alternativas equivalentes em outros lugares”, afirmou em entrevista ao g1. A CM Paula informou ao USTR que cerca de 120 de seus produtos seriam afetados pela tarifa, pois “não estão disponíveis em fontes alternativas com preços razoáveis, qualidade semelhante ou quantidade suficiente fora do Brasil”.
Madeiras Nobres e Materiais de Construção: A Falta de Alternativas Brasileiras
O setor de pisos de madeira também se manifesta contra a tarifa. Empresas como The Fantastic Floor, Artivo Surfaces, Strong Flooring Solutions e Wood Timber Import argumentam que espécies brasileiras como jatobá e cumaru são nativas da América do Sul e não possuem substitutos comercialmente disponíveis nos EUA. A Artivo Surfaces ressalta que a qualidade das madeiras brasileiras, que necessitam de processamento na origem, não pode ser replicada, e que a sobretaxa não estimularia a produção doméstica.
A JKG Inc., distribuidora de placas de granito, mármore e quartzo, também alertou que os materiais brasileiros possuem características geológicas únicas e que a tarifa apenas encareceria obras e produtos finais. A Legacy Roots Housing Initiative (LRHI), focada em habitação modular, prevê que a tarifa sobre componentes criaria barreiras para pequenos incorporadores e atrasaria projetos essenciais.
Setor Educacional e Agrícola Preocupados com Custos e Competitividade
A Lauria Dental Model, que comercializa modelos odontológicos para fins educacionais, pediu a exclusão desses produtos da tarifa. A empresa argumenta que seus produtos são destinados ao ensino, não competem com dispositivos médicos fabricados nos EUA, e que a sobretaxa apenas elevaria os custos da educação. A American Seed Trade Association (ASTA), representando a indústria de sementes, também solicitou a exclusão de sementes para plantio, alertando para o prejuízo à competitividade do setor americano e às cadeias globais de suprimento essenciais para a inovação agrícola.
O Brasil já enfrentou tarifas americanas de até 50% em 2025, com algumas cobranças suspensas ou questionadas judicialmente. Embora o governo americano tenha retirado tarifas sobre produtos agrícolas e pecuários em novembro de 2025, a situação atual envolve uma nova proposta de tarifa de 25% sobre uma ampla gama de produtos. A Amcham Brasil acompanha de perto a investigação e defende uma saída negociada, mantendo diálogo com autoridades brasileiras e americanas.
O governo brasileiro, através do Itamaraty, contesta tecnicamente a investigação do USTR e busca negociação diplomática. A expectativa é que o processo de decisão sobre as novas tarifas seja concluído até 15 de julho, data prevista para a eventual implementação das sobretaxas. A Amcham Brasil participou da consulta pública e da audiência promovidas pelo governo dos EUA, preparando uma manifestação que destacará os efeitos das sobretaxas nas cadeias de suprimentos, produção e consumo no mercado americano, bem como o risco de substituição por concorrentes asiáticos.
