Vídeos de IA no estilo Lego: Propaganda pró-Irã disfarçada de meme viral ou diversão?

VARIEDADES

IA e Guerra: A Nova Fronteira da Propaganda

Vídeos gerados por inteligência artificial (IA) que imitam o estilo visual dos blocos de montar Lego estão circulando intensamente, especialmente no contexto de conflitos globais. À primeira vista, podem parecer inofensivos e até divertidos, mas uma análise mais aprofundada revela um propósito muito mais sério: a disseminação de propaganda. Esses clipes, que frequentemente retratam cenas de guerra, violência e figuras políticas, utilizam uma estética universalmente reconhecível para alcançar um público amplo, levantando questões sobre a linha tênue entre entretenimento e manipulação.

A BBC, através de seu podcast Top Comment, conversou com o Sr. Explosive, representante da Explosive Media, uma das principais produtoras desses vídeos. Inicialmente, ele negou qualquer vínculo com o governo iraniano, afirmando ser “totalmente independente”. No entanto, sob pressão, admitiu que o regime é, de fato, um “cliente”, uma confissão inédita publicamente que lança luz sobre a origem e o financiamento dessa produção.

A mensagem central desses vídeos é clara: o Irã se posiciona como uma força de resistência contra um poder global opressor, personificado pelos Estados Unidos. A estratégia de usar a estética Lego, descrita pelo Sr. Explosive como uma “linguagem universal”, visa criar uma conexão imediata e acessível com audiências de diversas origens. Essa abordagem, embora visualmente simples, carrega um peso político significativo, transformando o que poderia ser visto como um meme em uma ferramenta de influência estratégica.

A Estética Lego como Ferramenta Política

Os clipes produzidos pela Explosive Media são marcados por uma estética vibrante e acelerada, inspirada nos icônicos blocos de montar. No entanto, o conteúdo foge completamente do universo infantil. Cenas de crianças morrendo, caças aéreos em combate e até mesmo o ex-presidente dos EUA, Donald Trump, são apresentados de forma impactante. Um exemplo notório é um vídeo onde Trump aparece caindo em um turbilhão de documentos do “arquivo Epstein”, acompanhado por letras de rap que sugerem segredos vazando e pressão aumentando.

Outro exemplo perturbador mostra George Floyd sob a bota de um policial, com a narração afirmando que o Irã está “aqui por todos aqueles a quem o seu sistema já prejudicou”. Essa narrativa busca associar a causa iraniana à luta por justiça social e contra opressão sistêmica, tentando angariar simpatia e apoio internacional. A especialista em propaganda, Emma Briant, cunhou o termo “slopaganda” para descrever esse conteúdo gerado por IA, destacando sua natureza sofisticada e poderosa, apesar da estética aparentemente simplória.

Desinformação e Narrativas Alternativas

Os vídeos gerados por IA, estimados a terem sido vistos centenas de milhões de vezes, frequentemente distorcem fatos para construir narrativas alternativas. Em um dos clipes, o Exército iraniano é retratado capturando um piloto de caça americano abatido. Autoridades dos EUA, no entanto, confirmaram que o aviador foi resgatado por forças especiais americanas. O Sr. Explosive refuta essa versão, alegando que o objetivo principal era “roubar urânio do Irã”, uma afirmação sem base em evidências confiáveis.

Essa disseminação de desinformação é amplificada por influenciadores em plataformas como o TikTok. Uma influenciadora mencionou que os vídeos Lego eram “surpreendentemente precisos”, endossando a narrativa alternativa sobre a missão do piloto americano. A IA permite que o Irã e outros países autoritários se comuniquem diretamente com o público ocidental de forma mais eficaz do que nunca, utilizando ferramentas treinadas com dados ocidentais para criar conteúdo culturalmente ressonante, segundo Briant.

Guerra Memética e Diplomacia Digital

Tine Munk, especialista em guerra cibernética, descreve as táticas iranianas como “guerra memética defensiva”, uma resposta necessária à retórica dos EUA. Os vídeos da Explosive Media, que surgiram no início de 2025 e ganharam popularidade após a guerra entre EUA e Irã, tornam-se cada vez mais detalhados, simulando a destruição de locais específicos no Golfo. Na realidade, muitos desses locais sofreram apenas danos limitados, evidenciando a distorção presente nos clipes.

A produção desses vídeos ocorre em “tempo real”, aparecendo rapidamente após eventos significativos da guerra, muitas vezes antes de anúncios oficiais. O Sr. Explosive defende seu trabalho com o governo iraniano, chamando-o de “honroso” e descartando protestos recentes como um “golpe” financiado por Trump. Ele também rejeita acusações de antissemitismo, afirmando que seus vídeos são “antissionistas”, justificando imagens como a do primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu bebendo sangue como uma forma de destacar “atrocidades cometidas por ele”.

O Futuro da Propaganda Digital

Plataformas de redes sociais têm tentado derrubar contas que compartilham esses vídeos, mas novas surgem com rapidez, configurando uma forma de diplomacia na internet ágil e agressiva. Essa estratégia “elimina os intermediários, elimina a imprensa, a mídia de massa, e faz circular memes constantemente”, segundo Munk. A ausência de diplomacia tradicional nesses canais aumenta o risco de má interpretação e escalada de conflitos, nos deixando em um “limbo”, conclui a especialista.

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