Inteligência Artificial impacta empregos de jovens no Brasil e levanta preocupações sobre formação profissional
A rápida evolução da inteligência artificial (IA) já está moldando o mercado de trabalho brasileiro, com um impacto notório sobre as oportunidades para os jovens. Setores que antes eram porta de entrada para recém-formados agora veem a IA assumir tarefas rotineiras, reduzindo as chances de contratação e levantando um alerta sobre a qualificação profissional futura.
Uma pesquisa recente do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas (FGV Ibre) revela que jovens de 18 a 29 anos em áreas mais suscetíveis à IA enfrentam uma queda de quase 5% nas chances de conseguir um emprego. Essa tendência se assemelha ao que já é observado em países desenvolvidos, onde a automação acelerada tem levado a reduções significativas no recrutamento de profissionais em início de carreira.
Os dados da pesquisa indicam que a IA generativa, popularizada pelo ChatGPT no final de 2022 e com o surgimento de novas ferramentas como Claude e Gemini em 2024 e 2025, está impactando diretamente ocupações que exigem tarefas mais burocráticas e repetitivas. A rapidez, o custo e a eficiência da IA na execução dessas atividades a tornam uma alternativa atrativa para as empresas, mas com sérias consequências para os mais novos no mercado.
Jovens mais vulneráveis em setores de informação e finanças
As áreas de serviços de informação, comunicação e finanças estão entre as mais expostas aos efeitos da inteligência artificial. De acordo com Daniel Duque, pesquisador-associado do FGV Ibre, essas ocupações frequentemente envolvem a execução de tarefas que auxiliam profissionais mais experientes na tomada de decisões, como a elaboração de relatórios, gráficos e resumos.
“Você precisa de um jovem para montar uma tabela, um gráfico, escrever um resumo”, explica Duque. Ele ressalta que, embora essas tarefas possam exigir alguma qualificação, elas são mais facilmente substituídas pela IA. A tecnologia pode realizar essas funções de maneira mais rápida, barata e, muitas vezes, com maior qualidade, impactando diretamente a demanda por mão de obra jovem.
Profissionais experientes e sêniores menos afetados pela IA
Em contrapartida, profissionais com mais tempo de carreira e em fases mais avançadas parecem estar, por enquanto, menos suscetíveis à substituição pela IA. A análise de dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio Contínua (Pnad), do IBGE, mostra que as faixas etárias de 30 a 44 anos e de 45 a 59 anos foram pouco ou nada afetadas pelos impactos da tecnologia no mercado de trabalho.
Daniel Duque aponta que os cargos sêniores envolvem um maior grau de responsabilidade, capacidade analítica e tomada de decisão. Essas competências, mesmo em setores vulneráveis à IA, são mais difíceis de serem replicadas pela tecnologia, conferindo maior segurança a esses profissionais.
Aceleração da adoção de IA e comparação com países desenvolvidos
A adoção da inteligência artificial no mercado de trabalho tem sido notavelmente mais rápida do que a de tecnologias anteriores, como o computador e a internet. Essa velocidade na implementação da IA explica o impacto mais imediato e acentuado no emprego, especialmente para os mais jovens.
Em países desenvolvidos, onde a automação já é mais avançada, pesquisadores do Laboratório de Economia Digital de Stanford, nos Estados Unidos, observaram uma queda de até 20% no recrutamento de jovens desenvolvedores. Em média, a queda na empregabilidade nesses setores mais expostos foi de 16%. Na França, um estudo do Insee revelou que empresas europeias já delegam à IA tarefas antes realizadas por profissionais juniores, como tratamento de dados e redação.
Brasil em desvantagem na complementaridade com a IA
Embora o Brasil apresente um nível de exposição à IA ligeiramente menor que países desenvolvidos, a situação é agravada pela menor capacidade de complementaridade entre a mão de obra e a tecnologia. Duque explica que, enquanto em outros países a IA é vista como uma ferramenta de auxílio, no Brasil, a baixa qualificação da força de trabalho em algumas áreas torna os profissionais mais substituíveis pela tecnologia.
A falta de domínio sobre as ferramentas de IA no país dificulta a sinergia entre humanos e máquinas. Na França, algumas empresas já optam por reduzir o número de estagiários e, em vez disso, incentivam os funcionários a aumentar o uso da inteligência artificial. O risco a longo prazo é a formação de futuros profissionais com competências defasadas.
Impacto na trajetória profissional e desafios futuros
A perda das primeiras experiências no mercado de trabalho pode comprometer significativamente a trajetória profissional de um indivíduo. Ao serem excluídos do mercado nessa fase inicial, os jovens podem não desenvolver as habilidades de liderança e tomada de decisão essenciais para o avanço na carreira, perdendo a oportunidade de aprender com profissionais mais experientes.
Duque alerta para um futuro onde modelos de IA mais avançados possam tomar decisões tão boas ou melhores que as humanas, potencialmente reduzindo a necessidade de trabalhadores em diversas funções. Diante desse cenário, a democratização do acesso à IA e a distribuição equitativa de seus benefícios de produtividade em todas as camadas da sociedade emergem como desafios cruciais para o futuro do trabalho no Brasil.
