O Físico Que Montou a Bomba de Nagasaki Revela: ‘Nunca Cogitamos Não Lançar’, Preocupação com a Humanidade Foi o Pecado

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Philip Morrison, Físico do Projeto Manhattan, Detalha os Bastidores da Bomba Atômica de Nagasaki

Em uma rara entrevista concedida à BBC em 1975, o físico americano Philip Morrison, um dos cientistas envolvidos na fabricação da bomba atômica lançada sobre Nagasaki em 9 de agosto de 1945, compartilhou reflexões profundas sobre as decisões que levaram ao uso da arma sem precedentes.

Morrison, que trabalhou no laboratório secreto de Los Alamos sob a direção de J. Robert Oppenheimer, teve um papel direto na montagem da bomba de plutônio conhecida como “Fat Man”. Ele transportou o núcleo do artefato e supervisionou seu carregamento no avião B-29 que o levaria ao Japão.

Suas palavras revelam um conflito interno e uma sensação de inevitabilidade. “Não foi por falta de preocupação com a humanidade. Foi justamente por preocupação com a humanidade. Talvez esse tenha sido o pecado”, afirmou, indicando a complexidade moral por trás de suas ações. A reportagem original da BBC, publicada 30 anos após o bombardeio, traz detalhes sobre a escala da destruição e os dilemas enfrentados pelos cientistas. Conforme informações divulgadas pela BBC, Morrison descreveu a base de Tinian como “o maior aeroporto do mundo”, um centro logístico colossal para os ataques aéreos aliados.

A Escala da Destruição e o Impacto da Bomba Atômica

Morrison comparou a força aérea americana em Tinian, capaz de lançar mil aviões B-29 em ataques que incendiavam quilômetros quadrados de cidades japonesas, com a operação única da bomba atômica. “A bomba atômica era outra coisa”, relatou ele, enfatizando a concentração de poder destrutivo em um único dispositivo.

As consequências foram devastadoras. Estima-se que cerca de 40 mil pessoas morreram instantaneamente em Nagasaki, com o número total de mortos ultrapassando 100 mil nos cinco anos seguintes. Em Hiroshima, as mortes iniciais foram de pelo menos 80 mil, chegando a aproximadamente 140 mil com o tempo.

Morrison relembrou um funcionário japonês em Hiroshima, que, em meio aos escombros, disse: “Tudo isso causado por uma única bomba, é insuportável”. Essa frase resumiu a magnitude da nova arma, que destruía cidades com uma eficiência aterrorizante e sem precedentes.

Um Impulso Imparável e a Busca por Alternativas

Apesar da escala da destruição, Morrison expressou que ele e outros jovens físicos de Los Alamos defenderam uma demonstração pública da bomba antes de seu uso contra o Japão. A ideia era convidar uma delegação internacional para o deserto, mas as circunstâncias da guerra tornaram isso uma “ilusão”.

Morrison descreveu o desenvolvimento da bomba atômica como um “impulso impossível de deter”. Ele acreditava que apenas a sobrevivência do presidente Franklin D. Roosevelt poderia ter alterado o curso dos eventos. Roosevelt, que morreu em abril de 1945, era visto por Morrison como a única figura com prestígio e força para “fazer esse terrível impulso retroceder”.

Com a ascensão de Harry S. Truman à presidência, que sequer conhecia o projeto inicialmente, a decisão de usar a arma nuclear foi acelerada. Morrison argumentou que Truman, embora tenha tomado a decisão, também “foi tomado por ela”, dada a complexidade e o momentum do projeto.

A Inevitabilidade dos Bombardeios e o Legado Pós-Guerra

A sequência dos bombardeios também seguiu um curso implacável. “Não se considerava uma primeira e uma segunda bomba. As ordens dadas aos comandantes eram: ‘Lance a bomba um e, em seguida, lance a bomba dois assim que puder'”, explicou Morrison. A decisão de adiar um segundo ataque após os devastadores efeitos do primeiro exigiria uma autoridade e uma reflexão em alto nível que, segundo ele, não ocorreram.

O plano original previa o lançamento contínuo de bombas nucleares por um ano, se necessário. Morrison chegou a elaborar um plano para essa contingência, detalhando cronogramas e preparativos logísticos.

Ao testemunhar as consequências reais dos ataques, a percepção dos cientistas mudou. “A diferença entre ver números e ver a realidade viva, a realidade de quem estava morrendo… É uma diferença enorme”, disse. Enquanto os militares celebravam em Tinian a noite do bombardeio de Hiroshima, muitos cientistas “ficaram sentados, abatidos, e com outra coisa em mente: o fim do mundo”.

Apesar disso, Morrison afirmou que nunca cogitou abandonar o Projeto Manhattan. “Em nenhum momento pensei em parar”, declarou. Ele também admitiu que, se a bomba estivesse pronta antes da derrota nazista, ela teria sido usada contra Berlim “num piscar de olhos”, pois os alemães eram os inimigos.

Após a guerra, Morrison dedicou-se a campanhas contra a proliferação nuclear, tornando-se um defensor do controle de armas. Em seu depoimento ao Senado americano em 1945, ele afirmou: “Estou completamente convencido de que não se pode permitir que outra guerra aconteça”. Ele também ressaltou a importância de um aviso adequado antes do uso da bomba, algo que, em retrospecto, “não há justificativa para não ter dado”.

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